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sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

ON NON-HUMAN PERSONS

To me, there's a clear difference between a person and a human being. Sometimes, we can see persons belonging in our culture that are not human. Jesus is treated as a person, though he's not human. In fiction and fantasy, aliens and sometimes robots are treated as persons, though they're also not human. Legally, corporations are can be treated like persons, though they're strikingly inhuman. Therefore, an urge can be felt to define the object "person" more broadly.

Dictionary.com promptly offers a very suitable alternative (as of Jan/2014):
"4. Philosophy . a self-conscious or rational being." So, in addition to mean human beings, such philosophical definition extends to entities that *exert rationality and own a well-defined, self-aware individuality*. Corporations, for example, have a very particular way to approach situations in a rational way, take responsibilities as an established entity and distinguish themselves from other companies and the rest of other persons (clients, inverstors, politicians etc). They are very self aware and, moved by market or social pressures, exercise empathy or egotism, as the very literally big and complex persons that they are.

The importance of this search for a renewed definition of the idea of a "person" stems from the cultural transition animal species as a whole are going through in these very times. Lead by humans, Earthling life forms are starting to be recognized as empathetic, rational, self-conscious entities that have enough in common with "human persons" in a sense that they inspire respect, lest we want to be inconsistent with our empathy for beings of the same species as ours. Simultaneously, we prepare for the possibilities of contact with extraterrestrial intelligence (and most prominently the want for such contact), and also prepare for the rise of artificial intelligence.

These last two cases, aliens and robots, inspire very intense and interesting reactions in us. These entities are predominantly portrayed in conflict with humanity, mainly oppressing humankind, but sometimes being oppressed by us. Works of fiction explore the notions of basic rights, privileges and emotions inherent to complex animals on planet Earth, which may be in discordance with the sociality of such inhuman entities. Often, humans are portrayed as fighting for their privilege to exist, amidst an universe of conscious entities, leaving behind "antiquated" notions of self and intelligence when needed for survival. These thought experiments demonstrate an urge for the preservation of intelligent, emotional life in its diverse forms, if not all life.

The consequence of not including these emerging intelligences within the "person" set  is tyranny. Not that tyranny is unacceptable by human social standards as of today, but it seems to be deemed as a "dated", inefficient posture towards sociology. Looking back in history, we note that the "dehumanization" of afro-descendants facilitated their slavery. Even an entire pseudo-scientific field, phrenology, was devised to purport the idea that the afro-descendant constituted a puny strain of the human species.  It may be argued that a similar form of discrimination is directed toward the poor and the criminals, so that arguments such as "[he/she] is not human for having killed another human, therefore is deserving of death" can be devised.

Whatever forces drive us to maintain the "personal status" within humankind, they are certainly hindering our cultural and scientific progress. As is with any biological force, its aim is protective and geared towards preservation of the family (the familiar pool of genes). We have broken many of these instinctive urges throughout or development as a society (we aren't hunters-gatherers anymore, for instance), and can only evolve towards complexity by surmounting these barriers that dominate simplistic societies. Before we gain hold of too much power for our theoretical understandings, we better make sure that no one is tyrannized as people were during periods such as slavery and the holocaust.

sábado, 9 de outubro de 2010

SOBRE SIGNIFICADO E INFORMAÇÃO, PARTE 1

Façamos algumas experiências de pensamento. Imaginemos uma região delimitada do universo praticamente vazia, com exceção apenas de duas esferas geométricas maciças. Consideremos também algumas coordenadas, como a distância (d) e o tempo (t).

Ao dispormos essas duas esferas no espaço, sempre poderemos traçar uma reta que liga uma à outra, sempre haverá esse eixo. Vamos chamar de d a distância entre as esferas no instante de tempo t. Consideremos a nós mesmos como observadores externos desse sistema. Observando a situação inicial em que acabamos de dispor as duas esferas, notamos sua distância. Até então tudo o que fizemos foi montar o quadro estático das duas esferas dispostas no espaço. Vamos então "acionar o tempo".

Acionado o tempo, estudamos alguns acontecimentos. Primeiro caso: as esferas permanecem no mesmo lugar. A distância entre elas não se altera. Os únicos objetos no sistema não se movem. Segundo caso: as esferas se movimentam à mesma velocidade sobre o mesmo eixo. A distância inicial d entre as esferas não se altera. Nessa região do universo os únicos referenciais que podem existir são as esferas, ou escolhe-se uma ou escolhe-se outra, pois são as únicas coisas que existem. Pensemos como se nós não fôssemos autorizados a habitar ali. Não existe nada mais nessa parte do universo que aqueles dois objetos. Foi como se o sistema inteiro se deslocasse, enquanto que em seu interior foi impossível registrar alguma mudança, pois nada entrou, nada saiu e muito menos houve alguma mudança interna relativa. Terceiro caso: as fronteiras do sistema se movimentam dentro de uma região vazia do universo, sem nunca entretanto excluir uma das esferas do volume que cobrem. Nesse terceiro caso não podemos dizer que houve perda de informação, pois a quantidade de posições probabilísticas que as esferas podem ocupar permanece a mesma. E mesmo se as fronteiras se expandissem ou se contraíssem, ainda assim os centros das esferas ocupariam pontos infinitesimais, mantendo o cálculo probabilístico da posição das mesmas, sendo preciso apenas variar o parâmetro adotado para medida relativa de posição. A quantidade de informações que podem ser geradas é sempre a mesma.

Enfim, ao final desse primeiro experimento percebemos que, sem a variação relativa da posição dos objetos, nada de notável podemos inferir sobre eles. Ora, vamos comprovar essa afirmação.

Tomemos o eixo que liga as duas esferas uma à outra e provoquemos um deslocamento sobre as duas ao longo desse eixo em sentidos opostos (Podemos repensar isso deste modo: provoquemos um deslocamento nas duas esferas no mesmo sentido, porém com diferentes valores absolutos de velocidade). Ora, instantaneamente percebemos uma variação em d. Sentimos imediatamente a necessidade de utilizarmos a coordenada t para darmos a função de variação de d. Dizemos que entre os instantes t’ e t, a distância entre as esferas variou de d’ - d. Chamemos essa variação de Δd. Somos capazes de produzir em nossas imaginações inúmeras situações em que Δd > 0, ou que Δd < 0. Isso nos faz buscar, intuitivamente, uma forma de expressar um Δt em função desse Δd, e vice-versa, coisa que não acontecia de forma alguma durante o primeiro experimento.

Durante o primeiro experimento, não importava o fenômeno que estudávamos, não percebíamos qualquer alteração nas informações armazenadas dentro do sistema. Era como se o tempo não fosse necessário, pois nenhum tipo de informação era gerado a partir dele. Seria, grosso modo, algo semelhante a observar uma massa m de matéria no zero absoluto à uma distância infinita de todo outro tipo de objeto existente no universo.

Havendo, outrora, dois estados, duas imagens, uma registrando d e outra registrando d’, percebemos a geração de informação na forma de Δt. Talvez a informação gerada Δt não esteja ‘preocupada’ com os valores absolutos de d ou de t que representam os objetos nos instantes inicial e final (se t for escolhida como variável independente), mas a sua magnitude Δt pode ser interpretada em termos relativos à outras variações Δt’ ou à variações nulas.

O que isso quer dizer é que, pelo menos para um sistema mecânico, precisamos de algum tipo de variação nas coordenadas do sistema para inferir algo sobre ele.

sábado, 21 de agosto de 2010

SOBRE UM POUCO DA EXISTÊNCIA DE IDENTIDADE

John Doe desperta do sono. Após se livrar da languidez extasiante, prepara seus pensamentos para o dia que tem a “cumprir”. Estranhamente, o ambiente à sua volta não exibe nada do que ele se sente habituado a ver. Trata-se de uma superfície plana que se estende até o horizonte, sem nenhum tipo de acidente, que se põe abaixo de um espaço aparentemente vazio (provavelmente preenchido apenas por ar atmosférico), sem qualquer tipo de aglomeração de substâncias quaisquer. É notável o reflexo da cor branca pelo solo homogêneo, assim como pela atmosfera homogênea do lugar. Essa cor faz com que, no horizonte, a superfície e o que há (ou não há) acima dela se confundam.

A memória de John não se manifesta ativamente. Ele apenas busca saber o que precisa fazer. Não sente fome, não sente cansaço, não sente nenhum odor no ar. Não enxerga nada em qualquer direção. Porque não andar um pouco para ver o que está lá ao longe? Após vagar por um período tempo difícil de mensurar, a paisagem continua a mesma. John tem andado bastante, no entanto as coisas permanecem as mesmas.

Ele se atira no chão, e tenta analisar um pouco o solo onde pisa. Esse solo oferece uma base segura a seus passos, mas ao mesmo tempo é mais liso do que a pedra mais polida que ele jamais concebera em sua imaginação, e também mais duro e mais rígido do que pedra mais dura e mais rígida! Não transmite o som de uma pancada, não possui odor e é homogêneo até onde os sentidos conseguem alcançar! Mas o que há com esse lugar tão monótono???

Já prostrado no chão, Johnny deita-se e tenta adormecer na esperança de acordar em uma outra realidade. Sem idéia de quanto tempo se passou, abre os olhos novamente. A situação permanece a mesma. Põe-se novamente a andar.

Por mais que caminhe, por mais até mesmo que corra, não se cansa. Apesar de o corpo resistir, Johnny se zanga. Não possui mais espírito para se locomover. Passa a se questionar: de que adianta me deslocar por este lugar? Senta-se e busca refletir. Pensa então que não precisa mais do chão, seria mais fácil se não sofresse com esse limite. O que se esconderia por debaixo dessa superfície afinal? Não faria mais sentido que isso lhe fosse revelado logo? Ergue-se então e torna a andar, mas após poucos passos, perde o chão. Despenca. Está em queda livre, ganhando velocidade.

Não é possível enxergar nada além da imensidão branca, monótona, há luz emitida de todos os lados. Não parece haver limite para a queda de Johnny. Ele constata, contudo, que há uma atmosfera, pelo menos. Utiliza-se disso para alterar a direção de sua queda. Sente o modo com que o ar passa pelo seu corpo e o empurra em uma direção. Apesar da velocidade que adquire, não chega a nenhum lugar diferente. Está em queda por tanto tempo que já se acostumou com a resistência do vento. Pode se mover, mas, será que existe ar mesmo? Não há mais como dizer. A ausência de um ponto de referência o faz questionar sua velocidade. Não percebe o tempo que passou sem pensar nisso, mas não escuta mais nenhuma forma de som. Talvez realmente não haja ar passando através de suas orelhas. O fato de seu cabelo estar em pé deve ser baseado na ausência de uma força gravitacional então. Não há mais nada nesse lugar que possa exercer tal força sobre ele! Johnny questiona a necessidade então de coisas como força gravitacional e existência do ar. Nessas circunstâncias, pra quê precisaria disso?

E essa cor branca? De onde vem? Essa luz? O que há nesse lugar para ver? O que há nesse lugar para sentir? Pensa então que se por acaso fechar os olhos e se convencer de que ao invés de branco tudo se trata da cor preta, como se o branco viesse da própria cabeça, ao abri-los novamente não enxergaria nada, nada mais de branco por todos os lados. Assim tenta.

Ao abrir novamente os olhos, não há o que enxergar, está tudo escuro. Questiona então de quê que servem os seus membros. Para quê os quer agora? Já não os enxerga, e ao tentar tocá-los, constata que já não consegue mais.

Talvez isso tudo seja uma ilusão provocada pela imersão em um tanque de isolamento! Só pode ser! Mas não se lembra de nada de um possível momento anterior à imersão em tal tanque. O fato é que só restou ele e a própria consciência. É como se não tivesse mais acesso a nada além da própria imaginação. Se não existe outra coisa, pra quê ele existe então?

Só resta mais uma coisa desaparecer. Esse é o lugar onde nada existe além de uma coisa só. Johnny sente como se tivesse perdido seu significado, assim como o chão, o ar, a luz, a matéria.

Nada mais existe.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

SOBRE A EXTINÇÃO ABSOLUTA, parte 2

Será que o calor existiria caso não houvesse ninguém para o sentir?

Em definição física, o calor existe apenas como um conceito abstrato de transferência de energia. Ele é o fenômeno que ocorre quando energia térmica é transmitida de alguma forma de um objeto para outro, ou de um sistema para o ambiente e vice-versa. Em resumo, o calor depende da interação de dois objetos.

Se nós imaginarmos que o Sol fosse o único objeto no universo inteiro, uma vez que sua radiação fosse emitida, ela se propagaria indefinidamente pelo espaço (respeitando, é claro, as regras de expansão do universo). Desse modo, quanto mais passasse o tempo, menos concentração de energia luminosa estaria disponível por metro cúbico de espaço. No instante arbitrário em que a variação de tempo pudesse ser considerada infinita, não haveria mais nenhuma energia em todo universo, dado que o Sol já estaria morto.

Se ao invés disso, nessa realidade existisse além do Sol uma Lua também, quando a radiação solar atingisse o solo lunar, não se poderia dizer que a lua perceberia a energia transferida.

Em nossa realidade, contudo, nós existimos e a radiação solar nos atinge, e nós percebemos o quanto ela adiciona de energia aos nossos corpos. Quando a luz solar atinge um cadáver, nenhuma informação é gerada na consciência de humano algum, e, para descobrir que houve uma transferência de energia entre o Sol e o outro objeto inanimado, teríamos de submeter o cadáver à estudo. O único momento em que a energia seria reconhecida seria o momento em que um ser humano vivente descobrisse a sua história.

O que em essência essas palavras querem dizer é que um objeto inanimado por si só não é capaz de gerar informação. Voltando ao exemplo da partitura, temos que, por si mesma, a tinta numa folha de papel que em nossas mentes representa uma partitura não fornece nenhuma informação musical a nenhum tipo de receptor que não um ser humano educado em teoria musical! Da mesma forma, a existência da própria folha de papel não fornece nenhuma informação sobre si mesma a um ser vivo que não é capaz de compreender a função dela entre os outros objetos ao seu redor. É o mesmo caso de como levamos um consideração um grão de areia quando vamos à praia. O grão em si não existe, o que existe é a areia, e, em última instância, o que existe é “a praia”.

Ao entendermos uma folha de papel como “o que ela é”, estamos dando-lhe um significado que nós criamos e a partir desse significado a separamos do resto do universo. Não pensamos mais nela como um agregado de moléculas, e sim como um objeto maciço que serve para receber tinta. E da mesma forma fazemos com todos os objetos que tentamos conceber, muitas vezes generalizando, outras poucas vezes tentando focalizar o máximo possível na especificidade deles.

É por essa razão que, num universo onde existisse apenas o Sol e a Lua, a Lua não seria capaz de perceber o calor advindo do Sol. Não haveria, pois, nenhum significado ou conceito atrelado aos dois objetos. Como se pode dizer, afinal, que a energia que antes estava aprisionada em átomos de hidrogênio e que foi repelida numa explosão no interior do Sol deixou de ser caracterizada como “parte do Sol”? Certamente ninguém estaria lá para definir esses conceitos. A lei de equivalência entre massa e energia está lá pra comunicar que a natureza não se importa com a forma com que a existência se manifesta, ela continua sendo a mesma coisa que era antes.

Apesar de tudo isso, quando a energia solar nos atinge, um novo elemento é adicionado à equação. Não nos sentimos mais os mesmos, uma nova informação é então gerada. Não fomos nós que criamos o Sol a partir da nossa imaginação e através disso causamos a nós mesmos a sensação de calor, embora seja possível obter essa sensação a partir da imaginação, mas foi o próprio Sol que nos atingiu com sua energia e esta por sua vez foi capaz de estimular alguma alteração no nosso interior.

O Sol existe, mesmo que seja entendido apenas como um conceito abstrato até mesmo em nossas concepções científicas. Isso é fato dentro do contexto examinado nestas linhas, até aqui não se pôde provar o contrário. Contudo, aconteça o que acontecer com ele, o universo no interior e ao redor dele não sofrerá nenhuma alteração, a menos que essa alteração possa ser detectada. A variação de energia, a transmissão de energia precisa ser medida para que sua existência adquira significado. E, para efeitos de medição, ela só pode ser sentida. O calor, portanto, jamais existiria caso nós seres vivos não estivéssemos aqui para senti-lo.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

SOBRE A EXTINÇÃO ABSOLUTA, parte 1

Será que a música continuaria existindo no dia em que não houvesse mais ninguém para ouvir?

É óbvio que não.

Atualmente nós nos utilizamos de vários meios para reproduzi-la, entretanto esses meios são unicamente baseados no mesmo princípio. Para que alguém possa falar em um instante, tenha o som de sua voz gravado em um objeto, e, num momento posterior, tenha sua voz reproduzida com imensa fidelidade, utilizam-se princípios bem simples. A fidelidade depende da sensibilidade do instrumento que detecta a alteração no ar do ambiente na hora da fala. Estimulado pela energia sonora viajando através das partículas de gás da atmosfera local, o instrumento imprime em algum outro objeto ou em um arquivo digital uma tradução das excitações elétricas causadas pela propagação da energia advinda da fonte sonora. Quanto mais sensível for o equipamento, mais fiel ao estímulo original será a tradução. Para a reprodução, é preciso apenas que uma nova fonte sonora leia a linguagem que o instrumento de gravação imprimiu, mas dessa vez traduzindo para o idioma original. Em alguns instrumentos, trata-se de uma tradução ‘energia sonora – sensíveis estímulos elétricos’ e vice-versa. E eis que mais uma vez a música surge, quando se põe um CD num CD player.

O mesmo tipo de processo ocorre quando se toca um instrumento musical qualquer. Dessa vez a tradução ocorre nesse sentido: ‘linguagem cerebral – músculos do corpo – instrumento musical’, e dessa forma acontece, nunca a música sendo reproduzida de uma maneira idêntica à anterior. É evidente que a perda de informação entre uma reprodução e outra ocorre devido à segunda lei da termodinâmica. A energia gasta para reproduzir a música da primeira vez não será toda aproveitada pelo instrumento de gravação, assim como este não conseguirá converter com um rendimento ideal a linguagem de estímulos elétricos novamente à energia sonora. Talvez, por uma extrapolação não intencional de informações, nós obtenhamos êxito em conservar nossos trabalhos musicais. Apenas a parte mais inútil de informação é desperdiçada, mas as instruções básicas para a reprodução de uma peça musical são perfeitamente conservadas. É para isso que a notação musical existe. Eletricidade e papel podem ser desperdiçados, mas a informação gravada através da notação permanece. Talvez, através disso, uma canção possa prolongar seu tempo de vida indefinidamente.

Mas e quando não houver ninguém para reproduzi-la? Uma folha de papel preenchida não fala por si mesma, e, em uma primeira análise, não passa de uma folha industrializada provinda de uma árvore, com um pouco de tinta em cima. Somente quando alguém traduz o que está escrito de volta em energia sonora é que a música pode ser novamente percebida. Mas não é na energia sonora que a música consiste. Após essa energia atravessar o meio atmosférico “de maneira quântica” até o interior do seu ouvido, após ser retraduzida em várias linguagens diferentes dentro do seu sistema nervoso, é que ela poderá ser montada novamente e de alguma forma você a percebe. Em resumo, ela acontece dentro de você e cessa instantaneamente no momento em que você não for capaz de reproduzi-la para si mesmo. De alguma forma, uma parte energia sonora consegue deixar o meio físico e empírico que nós conhecemos e se confundir em nossas cabeças com o interior de nós mesmos. Nossa mente precisa, afinal de contas, ser estimulada de algum modo pela energia sonora para que consiga interpretá-la, mesmo que a música aconteça simplesmente através de uma comunicação entre nós e nós mesmos ao ler uma partitura.

Por si só, uma partitura não tem nenhum significado, assim como uma pedra pode não lhe sugerir nenhum som se vista. Após a destruição da partitura, a possibilidade de reproduzir a música desaparece. Enfim, a canção em si nunca existiu, tudo o que existiu foi uma comunicação interna entre a pessoa e ela mesma durante o ato de escrita ou leitura da partitura. No final das contas, tudo recai sobre a sensibilidade do ser humano, no momento de receber de si mesmo o estímulo mencionado. Mesmo que seja um estímulo inspirado em forças externas.

Sem seres vivos, então, a música estaria impossibilitada de existir! Um CD, uma partitura, um arquivo mp3, nenhum desses objetos possui um significado musical! Apenas ao texto escrito neles pode ser atribuído algum valor. Contudo, a linguagem é ela mesma outra coisa abstrata! Assim como toda a matemática, a linguagem binária não fornece um objeto existente concreto, seja na forma de matéria, seja na forma de energia. Tudo isso só tem significado quando um ser humano lê e interpreta. Em resumo, toda a cultura musical perderia seu significado no caso da inexistência repentina da humanidade.

Honestamente, a última sentença foi um tanto infeliz. Seria melhor “toda a cultura musical perderia seu significado no caso da inexistência repentina dos seres vivos.” Agora sim, a frase está precisa. O interior de um ser vivo, o mundo percebido pelos seus sentidos, é esse o único meio onde é possível que a música exista. A essa altura, é com muito receio que falo na existência da música. Faço-o, entretanto, para manter a clareza.

sábado, 17 de outubro de 2009

SOBRE A SOCIEDADE

A sociedade é o dispositivo e o fenômeno gerados e ministrados pelos seres humanos através de um acordo subliminar de livre convivência e respeito mútuo.
A sociedade é, por natureza, um fenômeno antianarquista e imperativo que não respeita a liberdade do ser humano. Uma vez que se nasça dentro dos limites da esfera terrestre (e, talvez, da relação direta de dois indivíduos membros de uma mesma sociedade), o indivíduo é considerado membro e lhe são impostas relações, atos, condições e situações não previstas no sentido de individualidade do ser.
Óbvio, um ser humano em seu estágio inicial de desenvolvimento necessita de um amparo que lhe é fundamental, e que só lhe pode ser forçado, uma vez que esse ser humano é incapaz de interpretar as interações interpessoais, sua própria condição, comunicar-se de forma plena e completa e de se autossustentar. Por esse motivo, para os seres humanos a sociedade é um fenômeno inescapável e um contrato irrecusável.
Quando o ser humano atinge a maturidade intelectual suficiente para demonstrar plena consciência de si e do universo, uma dicotomia lhe ocorre: apesar do direito de igualdade na conduta que um ser humano deve ter para com o outro, é forçado a esse indivíduo aceitar as imposições da lei local de onde ele estiver, sofrendo influência do que representa a vontade geral de todo um conjunto de pessoas e que pode entrar em confronto com a sua própria vontade. Com efeito, a autoridade em que se baseia a lei local é um acordo de relação entre os membros. Caso um indivíduo queira se desprender da sociedade, isso não lhe é possível, a não ser que ele se retire da região de influência da sociedade, o que, em si, ainda não deixa de ser discutível.
Ora, um ser humano, desde que não prejudique um outro, deveria ser respeitado em seus desígnios, o que, embora soe como um preceito racional, já é impossível. Tomemos como exemplo a hipótese de que a água é um recurso não renovável para os propósitos de consumo e fundamental à sobrevivência, e que uma quantidade consumida por uma pessoa signifique uma redução da quantidade de água disponível para outra. Como a água não é um bem que pertence exclusivamente a nenhuma das duas, a redução da quantidade de água disponível caracteriza já uma forma de prejuízo, mais visível quando a quantidade não for suficiente para suprir duas pessoas ao mesmo tempo. Do mesmo modo, apenas o fato de uma pessoa ocupar espaço nas proximidades de outra já caracteriza uma forma de prejuízo, uma vez que essa restringe a liberdade da outra, lhe priva o direito de ir e vir (no respectivo caso, ir ao ou vir do lugar que a outra pessoa ocupa).
Temos, portanto, que a sociedade é de natureza paradoxal. Não há como haver o pleno respeito da liberdade de um indivíduo, e, entretanto, a liberdade é um importante direito do ser humano, e é até bem interpretado na constituição internacional.
Através disso, concluímos que a influência dos atos de um indivíduo sobre todos os outros é inevitável, logo, o estabelecimento de um acordo é essencial para a saúde das inter-relações. Compreendemos, portanto, que a dualidade que a sociedade causa representa o que deve ser um equilíbrio entre a liberdade e o prejuízo, sendo a sociedade fundamental nesse aspecto para o bem estar da população e que não necessita ser resolvida em sua antítese.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

SOBRE O PECADO

O pecado existe, afinal. Não é preciso considerar a existência de um deus para que se guarde de ter uma vida em desobediência à moral comum.
Caso seja desconsiderada a existência de uma entidade de juízo espiritual, a única mudança a ser notada é a própria consequência do pecado, uma vez que, alheio às tramitações da lei escrita e direta, cabe ao próprio ser julgar a sua conduta em razão disso e o seu próprio destino, desde que este lhe caiba cumprir.
Com efeito, o pecado não consiste naquilo que é alheio à regra de boa conduta moral. Essa definição limita o poder de harmonização da vida humana e restringe, às vezes até bloqueando, as ações extraordinárias de boa intenção comunitária. O que caracteriza o pecado é, na verdade, o ato que desarmoniza o interior do ser.
Ora, se considerarmos um ser humano com patologias psíquicas, cuja moral é fatalmente distinta daquela que cabe aos seres lúcidos, entendemos que este não detém pleno controle sobre suas ações e o absolvemos de suas faltas para com a comunidade. Do mesmo jeito, se temos uma pessoa lúcida e esta vem a prejudicar outra pessoa ou um número qualquer de pessoas, ou ainda a si mesma, essa pessoa é considerada culpada de falta contra a moral da sociedade, e é, portanto, expurgada de seus crimes a partir de procedimentos oficiais, informais ou pode até mesmo jamais lhe ser concedido o perdão.
O prejuízo causado por um indivíduo, quando considerado danoso, é um fator de desarmonização da vida e da própria sociedade, o que se contrapõe ao progresso da humanidade, desrespeita o direito de igualdade (se esse vigorar na moral da sociedade em questão), desrespeita o acordo de convivência dessa e a fere a integridade. Em outras palavras, interfere destrutivamente na saúde das pessoas em geral. Esta é, de fato, a definição de “prejuízo”.
O pecado, enfim, é tudo aquilo que o indivíduo lúcido considera “prejuízo” e que, além disso, não irá proporcionar um avanço em prol da melhoria da qualidade de vida da população como um todo, seja até mesmo pela influência de um crime contra uma única pessoa, que desarmonizará a vida de um ou mais indivíduos quaisquer que sejam sem lhes trazer benefícios e desenvolvimento compensadores a posteriori.
A definição do pecado em si elimina a necessidade de qualquer juízo superior para a sua observação, muito embora não ofereça nenhuma base para o estabelecimento de uma tramitação expurgatória do mesmo.
E, por fim, como consequência da lucidez do indivíduo praticante do pecado, a detecção desse pecado se dá através do velho mecanismo proposto nos tempos antigos: se teu ato lhe ferir a consciência, tens pecado. De fato, por serdes lúcido tens a plena consciência de serem teus atos prejudiciais ou construtivos, não obstante o prazer e a satisfação que esses lhe proporcionem.