sábado, 21 de agosto de 2010

SOBRE UM POUCO DA EXISTÊNCIA DE IDENTIDADE

John Doe desperta do sono. Após se livrar da languidez extasiante, prepara seus pensamentos para o dia que tem a “cumprir”. Estranhamente, o ambiente à sua volta não exibe nada do que ele se sente habituado a ver. Trata-se de uma superfície plana que se estende até o horizonte, sem nenhum tipo de acidente, que se põe abaixo de um espaço aparentemente vazio (provavelmente preenchido apenas por ar atmosférico), sem qualquer tipo de aglomeração de substâncias quaisquer. É notável o reflexo da cor branca pelo solo homogêneo, assim como pela atmosfera homogênea do lugar. Essa cor faz com que, no horizonte, a superfície e o que há (ou não há) acima dela se confundam.

A memória de John não se manifesta ativamente. Ele apenas busca saber o que precisa fazer. Não sente fome, não sente cansaço, não sente nenhum odor no ar. Não enxerga nada em qualquer direção. Porque não andar um pouco para ver o que está lá ao longe? Após vagar por um período tempo difícil de mensurar, a paisagem continua a mesma. John tem andado bastante, no entanto as coisas permanecem as mesmas.

Ele se atira no chão, e tenta analisar um pouco o solo onde pisa. Esse solo oferece uma base segura a seus passos, mas ao mesmo tempo é mais liso do que a pedra mais polida que ele jamais concebera em sua imaginação, e também mais duro e mais rígido do que pedra mais dura e mais rígida! Não transmite o som de uma pancada, não possui odor e é homogêneo até onde os sentidos conseguem alcançar! Mas o que há com esse lugar tão monótono???

Já prostrado no chão, Johnny deita-se e tenta adormecer na esperança de acordar em uma outra realidade. Sem idéia de quanto tempo se passou, abre os olhos novamente. A situação permanece a mesma. Põe-se novamente a andar.

Por mais que caminhe, por mais até mesmo que corra, não se cansa. Apesar de o corpo resistir, Johnny se zanga. Não possui mais espírito para se locomover. Passa a se questionar: de que adianta me deslocar por este lugar? Senta-se e busca refletir. Pensa então que não precisa mais do chão, seria mais fácil se não sofresse com esse limite. O que se esconderia por debaixo dessa superfície afinal? Não faria mais sentido que isso lhe fosse revelado logo? Ergue-se então e torna a andar, mas após poucos passos, perde o chão. Despenca. Está em queda livre, ganhando velocidade.

Não é possível enxergar nada além da imensidão branca, monótona, há luz emitida de todos os lados. Não parece haver limite para a queda de Johnny. Ele constata, contudo, que há uma atmosfera, pelo menos. Utiliza-se disso para alterar a direção de sua queda. Sente o modo com que o ar passa pelo seu corpo e o empurra em uma direção. Apesar da velocidade que adquire, não chega a nenhum lugar diferente. Está em queda por tanto tempo que já se acostumou com a resistência do vento. Pode se mover, mas, será que existe ar mesmo? Não há mais como dizer. A ausência de um ponto de referência o faz questionar sua velocidade. Não percebe o tempo que passou sem pensar nisso, mas não escuta mais nenhuma forma de som. Talvez realmente não haja ar passando através de suas orelhas. O fato de seu cabelo estar em pé deve ser baseado na ausência de uma força gravitacional então. Não há mais nada nesse lugar que possa exercer tal força sobre ele! Johnny questiona a necessidade então de coisas como força gravitacional e existência do ar. Nessas circunstâncias, pra quê precisaria disso?

E essa cor branca? De onde vem? Essa luz? O que há nesse lugar para ver? O que há nesse lugar para sentir? Pensa então que se por acaso fechar os olhos e se convencer de que ao invés de branco tudo se trata da cor preta, como se o branco viesse da própria cabeça, ao abri-los novamente não enxergaria nada, nada mais de branco por todos os lados. Assim tenta.

Ao abrir novamente os olhos, não há o que enxergar, está tudo escuro. Questiona então de quê que servem os seus membros. Para quê os quer agora? Já não os enxerga, e ao tentar tocá-los, constata que já não consegue mais.

Talvez isso tudo seja uma ilusão provocada pela imersão em um tanque de isolamento! Só pode ser! Mas não se lembra de nada de um possível momento anterior à imersão em tal tanque. O fato é que só restou ele e a própria consciência. É como se não tivesse mais acesso a nada além da própria imaginação. Se não existe outra coisa, pra quê ele existe então?

Só resta mais uma coisa desaparecer. Esse é o lugar onde nada existe além de uma coisa só. Johnny sente como se tivesse perdido seu significado, assim como o chão, o ar, a luz, a matéria.

Nada mais existe.

SOBRE UM POUCO DO SURGIMENTO DA IDENTIDADE


quinta-feira, 12 de agosto de 2010

SOBRE A EXTINÇÃO ABSOLUTA, parte 2

Será que o calor existiria caso não houvesse ninguém para o sentir?

Em definição física, o calor existe apenas como um conceito abstrato de transferência de energia. Ele é o fenômeno que ocorre quando energia térmica é transmitida de alguma forma de um objeto para outro, ou de um sistema para o ambiente e vice-versa. Em resumo, o calor depende da interação de dois objetos.

Se nós imaginarmos que o Sol fosse o único objeto no universo inteiro, uma vez que sua radiação fosse emitida, ela se propagaria indefinidamente pelo espaço (respeitando, é claro, as regras de expansão do universo). Desse modo, quanto mais passasse o tempo, menos concentração de energia luminosa estaria disponível por metro cúbico de espaço. No instante arbitrário em que a variação de tempo pudesse ser considerada infinita, não haveria mais nenhuma energia em todo universo, dado que o Sol já estaria morto.

Se ao invés disso, nessa realidade existisse além do Sol uma Lua também, quando a radiação solar atingisse o solo lunar, não se poderia dizer que a lua perceberia a energia transferida.

Em nossa realidade, contudo, nós existimos e a radiação solar nos atinge, e nós percebemos o quanto ela adiciona de energia aos nossos corpos. Quando a luz solar atinge um cadáver, nenhuma informação é gerada na consciência de humano algum, e, para descobrir que houve uma transferência de energia entre o Sol e o outro objeto inanimado, teríamos de submeter o cadáver à estudo. O único momento em que a energia seria reconhecida seria o momento em que um ser humano vivente descobrisse a sua história.

O que em essência essas palavras querem dizer é que um objeto inanimado por si só não é capaz de gerar informação. Voltando ao exemplo da partitura, temos que, por si mesma, a tinta numa folha de papel que em nossas mentes representa uma partitura não fornece nenhuma informação musical a nenhum tipo de receptor que não um ser humano educado em teoria musical! Da mesma forma, a existência da própria folha de papel não fornece nenhuma informação sobre si mesma a um ser vivo que não é capaz de compreender a função dela entre os outros objetos ao seu redor. É o mesmo caso de como levamos um consideração um grão de areia quando vamos à praia. O grão em si não existe, o que existe é a areia, e, em última instância, o que existe é “a praia”.

Ao entendermos uma folha de papel como “o que ela é”, estamos dando-lhe um significado que nós criamos e a partir desse significado a separamos do resto do universo. Não pensamos mais nela como um agregado de moléculas, e sim como um objeto maciço que serve para receber tinta. E da mesma forma fazemos com todos os objetos que tentamos conceber, muitas vezes generalizando, outras poucas vezes tentando focalizar o máximo possível na especificidade deles.

É por essa razão que, num universo onde existisse apenas o Sol e a Lua, a Lua não seria capaz de perceber o calor advindo do Sol. Não haveria, pois, nenhum significado ou conceito atrelado aos dois objetos. Como se pode dizer, afinal, que a energia que antes estava aprisionada em átomos de hidrogênio e que foi repelida numa explosão no interior do Sol deixou de ser caracterizada como “parte do Sol”? Certamente ninguém estaria lá para definir esses conceitos. A lei de equivalência entre massa e energia está lá pra comunicar que a natureza não se importa com a forma com que a existência se manifesta, ela continua sendo a mesma coisa que era antes.

Apesar de tudo isso, quando a energia solar nos atinge, um novo elemento é adicionado à equação. Não nos sentimos mais os mesmos, uma nova informação é então gerada. Não fomos nós que criamos o Sol a partir da nossa imaginação e através disso causamos a nós mesmos a sensação de calor, embora seja possível obter essa sensação a partir da imaginação, mas foi o próprio Sol que nos atingiu com sua energia e esta por sua vez foi capaz de estimular alguma alteração no nosso interior.

O Sol existe, mesmo que seja entendido apenas como um conceito abstrato até mesmo em nossas concepções científicas. Isso é fato dentro do contexto examinado nestas linhas, até aqui não se pôde provar o contrário. Contudo, aconteça o que acontecer com ele, o universo no interior e ao redor dele não sofrerá nenhuma alteração, a menos que essa alteração possa ser detectada. A variação de energia, a transmissão de energia precisa ser medida para que sua existência adquira significado. E, para efeitos de medição, ela só pode ser sentida. O calor, portanto, jamais existiria caso nós seres vivos não estivéssemos aqui para senti-lo.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

SOBRE A EXTINÇÃO ABSOLUTA, parte 1

Será que a música continuaria existindo no dia em que não houvesse mais ninguém para ouvir?

É óbvio que não.

Atualmente nós nos utilizamos de vários meios para reproduzi-la, entretanto esses meios são unicamente baseados no mesmo princípio. Para que alguém possa falar em um instante, tenha o som de sua voz gravado em um objeto, e, num momento posterior, tenha sua voz reproduzida com imensa fidelidade, utilizam-se princípios bem simples. A fidelidade depende da sensibilidade do instrumento que detecta a alteração no ar do ambiente na hora da fala. Estimulado pela energia sonora viajando através das partículas de gás da atmosfera local, o instrumento imprime em algum outro objeto ou em um arquivo digital uma tradução das excitações elétricas causadas pela propagação da energia advinda da fonte sonora. Quanto mais sensível for o equipamento, mais fiel ao estímulo original será a tradução. Para a reprodução, é preciso apenas que uma nova fonte sonora leia a linguagem que o instrumento de gravação imprimiu, mas dessa vez traduzindo para o idioma original. Em alguns instrumentos, trata-se de uma tradução ‘energia sonora – sensíveis estímulos elétricos’ e vice-versa. E eis que mais uma vez a música surge, quando se põe um CD num CD player.

O mesmo tipo de processo ocorre quando se toca um instrumento musical qualquer. Dessa vez a tradução ocorre nesse sentido: ‘linguagem cerebral – músculos do corpo – instrumento musical’, e dessa forma acontece, nunca a música sendo reproduzida de uma maneira idêntica à anterior. É evidente que a perda de informação entre uma reprodução e outra ocorre devido à segunda lei da termodinâmica. A energia gasta para reproduzir a música da primeira vez não será toda aproveitada pelo instrumento de gravação, assim como este não conseguirá converter com um rendimento ideal a linguagem de estímulos elétricos novamente à energia sonora. Talvez, por uma extrapolação não intencional de informações, nós obtenhamos êxito em conservar nossos trabalhos musicais. Apenas a parte mais inútil de informação é desperdiçada, mas as instruções básicas para a reprodução de uma peça musical são perfeitamente conservadas. É para isso que a notação musical existe. Eletricidade e papel podem ser desperdiçados, mas a informação gravada através da notação permanece. Talvez, através disso, uma canção possa prolongar seu tempo de vida indefinidamente.

Mas e quando não houver ninguém para reproduzi-la? Uma folha de papel preenchida não fala por si mesma, e, em uma primeira análise, não passa de uma folha industrializada provinda de uma árvore, com um pouco de tinta em cima. Somente quando alguém traduz o que está escrito de volta em energia sonora é que a música pode ser novamente percebida. Mas não é na energia sonora que a música consiste. Após essa energia atravessar o meio atmosférico “de maneira quântica” até o interior do seu ouvido, após ser retraduzida em várias linguagens diferentes dentro do seu sistema nervoso, é que ela poderá ser montada novamente e de alguma forma você a percebe. Em resumo, ela acontece dentro de você e cessa instantaneamente no momento em que você não for capaz de reproduzi-la para si mesmo. De alguma forma, uma parte energia sonora consegue deixar o meio físico e empírico que nós conhecemos e se confundir em nossas cabeças com o interior de nós mesmos. Nossa mente precisa, afinal de contas, ser estimulada de algum modo pela energia sonora para que consiga interpretá-la, mesmo que a música aconteça simplesmente através de uma comunicação entre nós e nós mesmos ao ler uma partitura.

Por si só, uma partitura não tem nenhum significado, assim como uma pedra pode não lhe sugerir nenhum som se vista. Após a destruição da partitura, a possibilidade de reproduzir a música desaparece. Enfim, a canção em si nunca existiu, tudo o que existiu foi uma comunicação interna entre a pessoa e ela mesma durante o ato de escrita ou leitura da partitura. No final das contas, tudo recai sobre a sensibilidade do ser humano, no momento de receber de si mesmo o estímulo mencionado. Mesmo que seja um estímulo inspirado em forças externas.

Sem seres vivos, então, a música estaria impossibilitada de existir! Um CD, uma partitura, um arquivo mp3, nenhum desses objetos possui um significado musical! Apenas ao texto escrito neles pode ser atribuído algum valor. Contudo, a linguagem é ela mesma outra coisa abstrata! Assim como toda a matemática, a linguagem binária não fornece um objeto existente concreto, seja na forma de matéria, seja na forma de energia. Tudo isso só tem significado quando um ser humano lê e interpreta. Em resumo, toda a cultura musical perderia seu significado no caso da inexistência repentina da humanidade.

Honestamente, a última sentença foi um tanto infeliz. Seria melhor “toda a cultura musical perderia seu significado no caso da inexistência repentina dos seres vivos.” Agora sim, a frase está precisa. O interior de um ser vivo, o mundo percebido pelos seus sentidos, é esse o único meio onde é possível que a música exista. A essa altura, é com muito receio que falo na existência da música. Faço-o, entretanto, para manter a clareza.

sábado, 14 de novembro de 2009

DA DESUMANIZAÇÃO

O que é você? O que é uma forma de vida?
Como você interpreta a sensação do toque frente à desilusão de que o seu corpo é formado de partículas que repulsam umas à outras e jamais encostam-se?
Qual volume sua mente ocupa no espaço?

Os seres vivos terrestres estão sempre vinculados a formas de manifestação que permitem a sua comunicação com o ambiente circundante e o ambiente intrínseco. À essas formas chamarei de Leis da fenomenologia da caracterização da consciência.
A primeira das formas é a sensação. A sensação é o fator que permite a aquisição de informações do meio externo e interno. A sensação é a capacidade do ser de sentir e experimentar os fenômenos diversos.
A segunda das formas é a racionalidade. A racionalidade é a capacidade de interpretação e julgamento, o discernimento. É a capacidade de lidar com as informações, analisá-las, guardá-las e alterá-las.
A terceira das formas é a identidade. A identidade é a capacidade de reconhecimento da própria racionalidade e da própria sensibilidade, entendendo que ambas as manifestações são por si experimentadas através da mesma sensibilidade e praticamente incomunicáveis a outras manifestações de sensibilidade, tornando praticamente intangíveis e intransferíveis as sensações e pensamentos alheios.
A conjunção de todas essas manifestações, cada qual com seu determinado nível de relevância - sendo a sensação independente da racionalidade e identidade, a racionalidade independente apenas da identidade e a identidade dependente das duas outras - é o que caracteriza a consciência.
Mas as velhas questões ficam. Onde termina e onde começa a consciência? Deveria a vida, sob qualquer circunstância, estar sempre vinculada à essas manifestações, qualquer que seja a forma de vida da qual se trate?
Considerando apenas as formas de vida que conhecemos, podemos hipotetizar a respeito da plasticidade individual, que consta na manipulação da própria identidade por um determinado ser.
Ora, a nossa racionalidade está atrelada à cognição, que é fundamentalmente dependente da nossa capacidade física de processamento de informações (e o é provavelmente para todas as outras formas de vida conhecidas). Nesse caso, fácil se torna nos desligarmos da concepção de enclausuramento à forma. Em nossos cérebros reside meramente a capacidade de emulação da racionalidade e intercomunicação entre a fenomenologia da manifestação da vida e o meio material em que nossos corpos se encontram. O cérebro não é uma forma que define o tipo de vida que se manifesta no ser - até onde a ciência consegue compreender, todas as formas de vida são manifestadas de acordo com os três fenômenos de caracterização da consciência (mesmo que possam não apresentar integralmente todos os três), sendo o sistema nervoso apenas um canal de comunicação entre os fenômenos físicos e os fenômenos espirituais (entenda-se por espírito a mente).
Dessa forma, ao nos reservamos apenas à nossa condição de manifestações da vida regidos pelas leis da fenomenologia da caracterização da consciência, podemos ignorar os aspectos que nos conferem identidade pessoal, taxonômica, social, e de qualquer outro tipo que extrapole os sentidos das leis. A racionalidade nos confere a plasticidade necessária para ignorarmos as limitações físicas que os nossos corpos nos imprimem e fazermos funcionar em nós mesmos os fenômenos básicos de manifestação da vida, perdendo, então, nossa identidade como humanos e nos tornando livres para assumir qualquer identidade com a qual os três fenômenos que nos caracterizam possam se comunicar diretamente. Isso pode acontecer, e em um baixo nível, por exemplo, através da transferência da mente de um corpo físico para outro. Em um alto nível, poderia ocorrer a total reconfiguração de como a manifestação individual da vida se intercomunica com o meio e consigo mesma.

sábado, 17 de outubro de 2009

SOBRE A SOCIEDADE

A sociedade é o dispositivo e o fenômeno gerados e ministrados pelos seres humanos através de um acordo subliminar de livre convivência e respeito mútuo.
A sociedade é, por natureza, um fenômeno antianarquista e imperativo que não respeita a liberdade do ser humano. Uma vez que se nasça dentro dos limites da esfera terrestre (e, talvez, da relação direta de dois indivíduos membros de uma mesma sociedade), o indivíduo é considerado membro e lhe são impostas relações, atos, condições e situações não previstas no sentido de individualidade do ser.
Óbvio, um ser humano em seu estágio inicial de desenvolvimento necessita de um amparo que lhe é fundamental, e que só lhe pode ser forçado, uma vez que esse ser humano é incapaz de interpretar as interações interpessoais, sua própria condição, comunicar-se de forma plena e completa e de se autossustentar. Por esse motivo, para os seres humanos a sociedade é um fenômeno inescapável e um contrato irrecusável.
Quando o ser humano atinge a maturidade intelectual suficiente para demonstrar plena consciência de si e do universo, uma dicotomia lhe ocorre: apesar do direito de igualdade na conduta que um ser humano deve ter para com o outro, é forçado a esse indivíduo aceitar as imposições da lei local de onde ele estiver, sofrendo influência do que representa a vontade geral de todo um conjunto de pessoas e que pode entrar em confronto com a sua própria vontade. Com efeito, a autoridade em que se baseia a lei local é um acordo de relação entre os membros. Caso um indivíduo queira se desprender da sociedade, isso não lhe é possível, a não ser que ele se retire da região de influência da sociedade, o que, em si, ainda não deixa de ser discutível.
Ora, um ser humano, desde que não prejudique um outro, deveria ser respeitado em seus desígnios, o que, embora soe como um preceito racional, já é impossível. Tomemos como exemplo a hipótese de que a água é um recurso não renovável para os propósitos de consumo e fundamental à sobrevivência, e que uma quantidade consumida por uma pessoa signifique uma redução da quantidade de água disponível para outra. Como a água não é um bem que pertence exclusivamente a nenhuma das duas, a redução da quantidade de água disponível caracteriza já uma forma de prejuízo, mais visível quando a quantidade não for suficiente para suprir duas pessoas ao mesmo tempo. Do mesmo modo, apenas o fato de uma pessoa ocupar espaço nas proximidades de outra já caracteriza uma forma de prejuízo, uma vez que essa restringe a liberdade da outra, lhe priva o direito de ir e vir (no respectivo caso, ir ao ou vir do lugar que a outra pessoa ocupa).
Temos, portanto, que a sociedade é de natureza paradoxal. Não há como haver o pleno respeito da liberdade de um indivíduo, e, entretanto, a liberdade é um importante direito do ser humano, e é até bem interpretado na constituição internacional.
Através disso, concluímos que a influência dos atos de um indivíduo sobre todos os outros é inevitável, logo, o estabelecimento de um acordo é essencial para a saúde das inter-relações. Compreendemos, portanto, que a dualidade que a sociedade causa representa o que deve ser um equilíbrio entre a liberdade e o prejuízo, sendo a sociedade fundamental nesse aspecto para o bem estar da população e que não necessita ser resolvida em sua antítese.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

SOBRE O PECADO

O pecado existe, afinal. Não é preciso considerar a existência de um deus para que se guarde de ter uma vida em desobediência à moral comum.
Caso seja desconsiderada a existência de uma entidade de juízo espiritual, a única mudança a ser notada é a própria consequência do pecado, uma vez que, alheio às tramitações da lei escrita e direta, cabe ao próprio ser julgar a sua conduta em razão disso e o seu próprio destino, desde que este lhe caiba cumprir.
Com efeito, o pecado não consiste naquilo que é alheio à regra de boa conduta moral. Essa definição limita o poder de harmonização da vida humana e restringe, às vezes até bloqueando, as ações extraordinárias de boa intenção comunitária. O que caracteriza o pecado é, na verdade, o ato que desarmoniza o interior do ser.
Ora, se considerarmos um ser humano com patologias psíquicas, cuja moral é fatalmente distinta daquela que cabe aos seres lúcidos, entendemos que este não detém pleno controle sobre suas ações e o absolvemos de suas faltas para com a comunidade. Do mesmo jeito, se temos uma pessoa lúcida e esta vem a prejudicar outra pessoa ou um número qualquer de pessoas, ou ainda a si mesma, essa pessoa é considerada culpada de falta contra a moral da sociedade, e é, portanto, expurgada de seus crimes a partir de procedimentos oficiais, informais ou pode até mesmo jamais lhe ser concedido o perdão.
O prejuízo causado por um indivíduo, quando considerado danoso, é um fator de desarmonização da vida e da própria sociedade, o que se contrapõe ao progresso da humanidade, desrespeita o direito de igualdade (se esse vigorar na moral da sociedade em questão), desrespeita o acordo de convivência dessa e a fere a integridade. Em outras palavras, interfere destrutivamente na saúde das pessoas em geral. Esta é, de fato, a definição de “prejuízo”.
O pecado, enfim, é tudo aquilo que o indivíduo lúcido considera “prejuízo” e que, além disso, não irá proporcionar um avanço em prol da melhoria da qualidade de vida da população como um todo, seja até mesmo pela influência de um crime contra uma única pessoa, que desarmonizará a vida de um ou mais indivíduos quaisquer que sejam sem lhes trazer benefícios e desenvolvimento compensadores a posteriori.
A definição do pecado em si elimina a necessidade de qualquer juízo superior para a sua observação, muito embora não ofereça nenhuma base para o estabelecimento de uma tramitação expurgatória do mesmo.
E, por fim, como consequência da lucidez do indivíduo praticante do pecado, a detecção desse pecado se dá através do velho mecanismo proposto nos tempos antigos: se teu ato lhe ferir a consciência, tens pecado. De fato, por serdes lúcido tens a plena consciência de serem teus atos prejudiciais ou construtivos, não obstante o prazer e a satisfação que esses lhe proporcionem.