sábado, 8 de setembro de 2012

SOBRE UMA REPRESENTAÇÃO INFINITESIMAL DO UNIVERSO



Imagine-se um ponto ideal. Imagine-se uma realidade totalmente vazia com exceção desse único ponto. Como não existem referências, podemos atribuir-lhe um número arbitrário, e por que não 0. Matematicamente,  isto quer dizer posicionar o ponto em um espaço unidimensional, ou descrevê-lo com um bit de informação se utilizarmos números em sistema binário (vamos assumir a notação binária ao longo deste post). Entretanto,  como não há restrições para o espaço em nosso exercício de imaginação, adicionemos uma nova dimensão ao longo da qual medir o ponto, ou seja, o façamos habitar uma região bidimensional. Utilizando a medida que escolhemos anteriormente como referência, atribuamos o número 1, digamos, ao valor do ponto na segunda dimensão. O ponto, descrito por 01 (se convencionarmos assim, ao invés de 10), é descrito com 2 bits de informação. Repetindo esse processo podemos produzir um ponto, digamos 1010, que possui quatro dimensões e é descrito com 4 bits.

Escolhendo sempre apenas um dígito entre 0 e 1 para descrever a medida do ponto ao longo de uma dimensão, convencionamos que cada dimensão aumenta 1 bit na quantidade de informação (ou entropia*) necessária para descrever o ponto. Além disso, nessa realidade imaginada, os pontos só podem existir nos vértices de um hipercubo de 4 dimensões (ou tesserato), de lado 1.Imagine-se um ponto ideal. Imagine-se uma realidade totalmente vazia com exceção desse único ponto. Como não existem referências, podemos atribuir-lhe um número arbitrário, e por que não 0. Matematicamente,  isto quer dizer posicionar o ponto em um espaço unidimensional, ou descrevê-lo com um bit de informação se utilizarmos números em sistema binário (vamos assumir a notação binária ao longo deste post). Entretanto,  como não há restrições para o espaço em nosso exercício de imaginação, adicionemos uma nova dimensão ao longo da qual medir o ponto, ou seja, o façamos habitar uma região bidimensional. Utilizando a medida que escolhemos anteriormente como referência, atribuamos o número 1, digamos, ao valor do ponto na segunda dimensão. O ponto, descrito por 01 (se convencionarmos assim, ao invés de 10), é descrito com 2 bits de informação. Repetindo esse processo podemos produzir um ponto, digamos 1010, que possui quatro dimensões e é descrito com 4 bits.

Designando esse ponto e o espaço que o contém como um universo, podemos desenhar um universo equivalente em quantidade de informação (entropia máxima informacional) na forma de um espaço plano contendo dois pontos bidimensionais. Convencionando sempre apenas 1 dígito para descrever cada medida ao longo de uma dimensão, temos que os dois pontos só poderiam existir em um dos quatro vértices de um quadrado – {00, 01, 10, 11} –. Chamemos o universo de um único ponto de universo A e o universo de um número de pontos maior que um de B. Um universo A com 6 dimensões, ou 6 bits seria equivalente a um universo B plano, também de 6 bits, com três pontos, ou a um outro universo B de 6 bits, mas tridimensional com dois pontos. A informação contida nos dois universos é a mesma, mas em nossa representação linguística os universos A e B talvez difiram no modo com que as informações são associadas, sem necessariamente alterar o caráter qualitativo geral da informação.

O único ponto presente no universo A continua sendo um único ponto presente na mesma posição não importa quanta informação acrescentemos a ele seguindo esse processo. Ao produzirmos um universo A de um número qualquer dA de dimensões (ou de bits),estamos desenvolvendo ao mesmo tempo um universo B de um número de dimensões dB = dAn, onde n é o número de pontos presentes no universo B. Dentro, claro, das convenções aqui adotadas.  Podemos sempre produzir um universo B tridimensional de complexidade arbitrária utilizando um x = 3n. Pode ser difícil falar em complexidade quando o universo só pode ser habitado nos vértices de um cubo, mas se extendermos um pouco mais nosso modelo ao quebrar algumas das restrições que nós mesmos nos impomos para construí-lo, enxergamos como essa complexidade pode facilmente surgir.

Figura 1. À esquerda são representados exemplos de universos tipo "A" e à direito respectivas transformações em universos tipo "B" de 2 e 3 dimensões. Note que, de acordo com a transformação, a sequência de números que descreve o universo tipo "A" é quebrada em pedaços de mesmo comprimento que descrevem elementos no universo tipo "B". Uma sequência num universo tipo "A" pode conter informação para descrever um cubo, ou, de acordo com  dB = dAn , 3 quadrados (superpostos).

Se escolhemos um valor limite maior do que 1 bit para a quantidade de informação necessária para descrever um ponto ao longo de uma dimensão, somos capazes de descrever posições intermediárias entre um máximo e um mínimo – antes, os valores oscilavam entre um mínimo 0 e um máximo 1, mas agora permitimos que eles oscilem em posições discretas entre um máximo 1111... e um mínimo 0000... (Podemos inclusive assumir valores reais em binário, para expandir a quantidade de valores intermediários entre os extremos ao infinito, mas, como frações em binário tendem a ter uma representação infinita, é preciso nesse caso realizar um tratamento especial para prevenir que uma quantidade infinita de informação seja necessária para descrever uma medida irracional, o que pode requerer a discretização do espaço) –. Dessa forma, eliminamos a relação de igualdade entre a quantidade de informação e quantidade de dimensões do universo A, entretanto podemos manter a relação linear na forma da = xm, onde m é o a quantidade de informação necessária para se descrever uma medida e x é o conteúdo máximo de informação do universo, em bits. Ajustando os parâmetros x, n e m, podemos produzir um universo B tridimensional de complexidade topológica arbitrária a partir de um universo A pontual.

Figura 2. Topologia arbitrária em um espaço discretizado tridimensional. A construção para um tal modelo se baseia na escolha de um número fixo qualquer de dígitos para a representação da magnitude de uma medida ao longo de uma dimensão. Isto quer dizer que, apesar de tridimensional, o universo tipo "B" representado não requer apenas 1 dígito para descrever a medida de um ponto ao longo de uma dimensão, ou 3 dígitos para descrever completamente 1 ponto. Determinados números de valores intermediários podem ser obtidos. No caso, cada ponto pode ocupar uma de 210 posições.

Se tomarmos o universo observável e tirarmos uma “foto” do seu estado atual, podemos capturá-lo numa sequência binária que represente todo o seu conteúdo informacional na forma de um universo A. O universo que observamos seria um universo B resultante da transformação do universo A consistente de um único ponto. Assumimos que o universo observável não sofre perdas ou ganhos de conteúdo (e.g. consiste em um sistema isolado), ou seja, a “magnitude” do universo permanece constante. No entanto, aceitamos o deslocamento relativo de partículas pontuais, o que significa um rearranjo de informação e um rearranjo dos valores que o universo A adquire em seu espaço. Podemos tanto pensar no universo A como um ponto em uma hiperesfera, quanto como um vetor. Isso implica que, com o passar do tempo, o vetor universo A muda de orientação e descreve uma trajetória na superfície de uma hiperesfera de raio equivalente à sua magnitude. Que padrões seríamos capazes de observar para a trajetória do universo observável nesse “espaço A”?!

Essa representação também pode permitir uma conexão entre a entropia informacional e a entropia física. Assumindo o universo observável como um sistema isolado, a sua entropia tende a aumentar. Geralmente isto quer dizer que o universo tende a assumir estados em que seus componentes ocupam o maior número possível de posições, o que requer uma quantidade maior de informação para descrevê-lo. No entanto, isto não precisa ser verdade caso não ignoremos as relações entre os elementos que compõem o universo, e é aí que a complexidade cumpre seu papel. Estudar a evolução conjunta de ambas as entropias pode talvez ser frutífero para trazer esclarecimentos sobre a estrutura do universo. Nos primeiros exemplos utilizei o termo “entropia” como sinônimo de “quantidade de informação”, mas isto não é verdade, especialmente num universo em que seus elementos variam de forma relativa uns aos outros. A quantidade total de informação se mantém, mas se a informação se torna mais redundante (i.e. se o universo se “organiza” mais), a sua entropia informacional diminui (junto com a entropia física de uma forma geral, mas não necessariamente).

Figura 3. Esquerda: o universo como um ponto infinitesimal numa hiperesfera de n dimensões.  Direita: o universo como um vetor cuja orientação muda descrevendo uma trajetória numa hiperesfera de raio equivalente à magnitude do vetor.

Outra implicação é que, como um ponto ou vetor, o universo ocupa um espaço infinitesimal na superfície de uma hipersesfera, o que não impede que outros universos (possivelmente uma quantidade infinita) de mesma magnitude existam sobre esse mesma superfíce, ou que universos de magnitudes diferentes existam em estratos diferentes da realidade.

Ainda outra implicação é que, visto dessa forma, o universo poderia estar expandindo em quantidade de informação, ao invés de simples extensão do espaço. Uma quantidade maior de informação disponível para o universo poderia representar uma quantidade maior de mapeamento de seus elementos, o que pode ser traduzido como uma expansão do espaço. O big-bang poderia ser interpretado como uma explosão informacional que mantém o universo como uma única partícula infinitesimal.

* Entropia do ponto de vista da Teoria da Informação

sábado, 28 de julho de 2012

SOBRE UM MODELO GEOMÉTRICO DO ESPAÇO OBSERVÁVEL

Desconheço a Teoria de Relatividade e os modelos propostos para descrever a geometria do espaço, mas na ignorância desenvolvi um modelo primitivo que fornece uma noção intuitiva aos modelos existentes. Peço perdão pela notável desorganização do texto. 

Sinto que é uma impressão geral a noção de que o universo observável pode estar impregnado numa seção de espessura infinitesimal em todas as dimensões exceto três. A grande pergunta que fica para mim é: como é possível que exista uma “cola” suficientemente poderosa para manter todos os objetos observáveis “presos” nessa seção? 

Algo que muito me perturba, embora me pareça logicamente aceitável, é que não temos acesso a espaços encerrados sob barreiras físicas em três dimensões (por exemplo, não podemos atravessar a parede de um cofre e retirar seu conteúdo sem abrí-lo). Algo precisa manter nossos braços na nossa seção infinitesimal nos privar do acesso ao interior do cofre por uma dimensão extra. 

Mas esse não é o ponto mais interessante a ser considerado. Assumindo a existência de pelo menos uma dimensão a mais, podemos imaginar o universo como uma seção de largura infinitesimal num espaço quadridimensional. Façamos a seguinte transformação. Para cada ponto no espaço tridimensional A(x,y,z) assinalemos um ponto em uma reta R(r), ou seja, codificando a informação dos três eixos perpendiculares de um espaço euclideano A (tridimensional) em um único eixo R (unidimensional). Realizando esse esquema de codificação, pontos contíguos no eixo R não representariam pontos contíguos no espaço A e vice-versa, contudo, em nome do argumento, assumamos que seja possível reorganizar os pontos ao longo do eixo R de forma que seções contíguas desse eixo possam representar pelo menos em parte seções contíguas do espaço A.



Em imaginação, tracemos um eixo S perpendicular ao eixo R para representar a quarta dimensão. De acordo com a visão acima, de que o universo está impregnado numa seção infinitesimal do espaço quadridimensional, visualizaríamos o universo no plano RxS como uma reta. Se o universo não estivesse “impregnado” observaríamos algo como pontos espalhados de maneira descontínua (istoé, observaríamos descontinuidades) no plano RxS. [Para os puristas, consideremos um intervalo em R que corresponda a um intervalo contínuo em A, de acordo com o esquema de organização de preferência]. Uma importante pergunta seria onde a reta deveria ser colocada e com que inclinação, ou seja, qual a imagem da função f : R -> S no domínio (r1,r2) de R e qual o seu comportamento? Na visão mais comum, provavelmente imaginaríamos uma reta horizontal no eixo R, ou seja, com o valor de S zero ao longo de todo o domínio de f. Algebricamente falando, f(r) : R -> S, f(r) = 0. Em termos simples, nada no espaço tridimensional que observamos possuiria propriedades mensuráveis na quarta dimensão (porque não as vemos a não as sentimos). Óbvio, não há motivo para não considerar todas as outras infinitas possibilidades para tal representação quadridimensional do universo, dado que se assuma alguma propriedade mensurável na dimensão “extra”. Note que a reta designada para representar o espaço tridimensional foi considerada como uma “função” devido à natureza “impregnada” do universo que se quer representar, que não permite que um ponto no eixo R corresponda a dois pontos no eixo S. 




Quais seriam então as propriedades que podemos mensurar na quarta dimensão? O que por acaso nos sentimos capazes de observar “fora” do nosso mundo tridimensional? Sugiro que comecemos pela gravidade. A gravidade seria uma propriedade que possui pelo menos um componente na quarta dimensão (pelo menos um componente perpendicular ao eixo R). Atribuir um valor diferente para a gravidade para cada ponto do eixo R significaria deslocar os pontos da reta f de modo a construir um objeto mais complexo, como uma curva ou pontos descontínuos dispersos. Mais uma vez, assumindo a natureza “impregnada”, a infinitesimalidade da “espessura” do universo na quarta dimensão (S), além do fato de o universo observável ser aparentemente contíguo, temos de nos restringir a um objeto contínuo, como uma curva. Cada partícula ideal contendo massa no espaço tridimensional A, representado no eixo R, possui um valor em S contíguo a dois pontos vizinhos, representando ou não outras partículas ideais (“ou não” porque, afinal, existe vácuo no espaço observável logo vizinho a uma partícula qualquer). 

A função f, agora representada por uma curva e não mais uma reta, pode assumir várias formas de acordo com o valor de massa que cada ponto representa. Avancemos mais um pouco no nosso exercício de imaginação. Imaginemos uma partícula p(r,s) inerte com um valor de gravidade s1 viajando no plano RxS ao longo da curva f (viajando através do espaço). Se não existisse gravidade como ela está sendo imaginada aqui, a curva f seria a reta S = 0 (s1 = 0) e a partícula p(r,0) viajaria à velocidade constante entre os pontos r1 e r2 do eixo R. Neste contexto, velocidade significa o quão rápido a projecão de p no eixo R se desloca ao longo do intervalo [r1,r2]. Isto significa que a velocidade máxima de p provavelmente seria observada num deslocamento “horizontal”, paralelo ao eixo R. Agora consideremos o mesmo intervalo [r1,r2] na representação curvilínea do espaço f, em que S pode assumir qualquer valor de forma contínua. Se a existir um mínimo ou máximo local da função f no intervalo [r1,r2], a projeção de p “levará mais tempo” para atravessar o intervalo [r1,r2]. De forma geral, quanto mais complicada for a função no intervalo e quanto maior for a magnitude da diferença da curva para uma reta paralela S = const., mais tempo a projeção de p levará para atravessar [r1,r2]. Mas isso não é tudo. Em nossa visão “achatada” do universo, de dentro da curva f vemos todos os eventos como projeções da curva f numa reta f’ paralela ao eixo R. Por esse motivo, não apenas obervamos um curvatura da trajetória de objetos leves viajando nas vizinhanças de objetos massivos, como a “curvatura” que observamos trata apenas de uma projeção de um movimento mais complicado. 

De fato é extremamente difícil imaginar o movimento no espaço curvo fazendo uso de uma projeção unidimensional, mas se pensarmos numa representação bidimensional B(x’,y’) ao invés da unidimensional R(r), podemos transferir as analogias disseminadas no estudo do espaço curvo.
Neste modelo, todas as partículas viajam sempre com a mesma velocidade c. Partículas ideais (pontuais) dotadas de massa alteram o valor S ao longo de um intervalo (possivelmente todo o eixo R), mas a sua influência se concentra num determinado raio. Partículas que viajam através da área de influência da gravidade de partículas massivas continuam viajando com velocidade c, mas em nossas projeções sua velocidade diminui. Dessa forma, c, a velocidade com que, para nós, uma partícula desprovida de massa viaja em uma trajetória paralela a R é a velocidade máxima para qualquer partícula quando observamos a projeção de seu trajeto no espaço observável. 

Notemos também que a representação do espaço tridimensional f não precisa ser uma função. A curva f pode consistir em qualquer conjunto que possa ser representado de maneira contínua em RxS. A curva f pode talvez interceptar a si mesma. Neste caso, para considerarmos a dinâmica do movimento através de uma tal trajetória, talvez seja necessário considerar uma dimensão além das quatro descritas. Se houver alguma razão para descreditar a continuidade de f (mas preservando o seu caráter contíguo) em todo o intervalo R em que o conjunto f é definido, podemos talvez falar numa dimensão (D) irracional do universo (no caso, 4 > D > 5). 

Outro aspecto desse modelo é que o “tempo”, como dimensão, não é requirido para descrever as propriedades topológicas do universo. Se a noção de tempo retém alguma utilidade para descrever um universo assim representado (já que todas as velocidades se mantem constantes, mas não as distâncias relativas), deixo a discussão sobre esta para depois.

Rejeito a sugestão de que o espaço observável possa ter largura não-infinitesimal, pois isso viola o princípio de que não temos acesso a intervalos encerrados em barreiras físicas, mas não vejo problema em admitir a existência de um número qualquer camadas imediatamente próximas e tangentes em todos os pontos (ou não)  ao espaço observável. Essas camadas representariam espaços tridimensionais não observáveis por nós.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

PARA UMA HIPÓTESE FÍSICA SOBRE A VIDA

Em seu livro “An Introduction to Information Theory: Symbols, Signals and Noise”, John Pierce discorre sobre o processo de especulação científica que precede esforços de desenvolvimento de teorias rigorosas em áreas jovens da ciência. A essa especulação ele chama “ignorância científica” e a diferencia da ignorância leiga. A ignorância científica seria a especulação que o cientista faz sobre o que ele acredita que possa vir a ser conhecimento científico de fato. Ela refletiria as esperanças e a motivação que o pesquisador tem em buscar um resultado desejado, mas que é ainda inalcançável dado o estado presente do conhecimento. Ela diferiria da ignorância leiga no que se baseia em fatos científicos e é capaz de direcionar o processo rigoroso do método científico à medida que avanços são feitos no determinado campo em que ela existe. Em “General Systems Theory”, Ludwig von Bertalanffy argumenta que modelos não-matemáticos são importantes, mesmo que pequem no caráter quantitativo e em seu poder analítico, pois, em épocas em que não há embasamento teórico suficiente para descrever precisa e rigorosamente um sistema, modelos “grosseiros” descritos em linguagem ordinária são o melhor recurso para esclarecer novos aspectos antes despercebidos e para preparar terreno para algoritmos matemáticos que forneçam descrições suficientemente precisas. Esses modelos são particularmente importantes quando comparados com modelos matemáticos que incorporem as restrições pertinentes de uma época incapaz de analisar o sistema em questão.

Essa ignorância científica é o que vou tentar aqui, ao apresentar não um modelo grosseiro, mas uma idéia em que basear um possível modelo para descrever a vida em termos físicos e quantitativos. Não há atualmente uma definição estrita sobre a vida e a natureza com que esse fenômeno se manifesta. Não há também nenhum artefato teórico para estabelecer uma ligação entre a vida e o corpo teórico que compõe a ciência atual. É inegável a influência que organismos vivos exercem sobre os sistemas que estudamos. Tentamos estudar os organismos vivos com os nossos conjuntos de conhecimentos físicos, matemáticos, químicos, biológicos, sistêmicos etc, tentamos aperfeiçoar nossos modelos mecanísticos para prever com mais precisão o comportamento e destino desses organismos e de seu ambiente e assim julgarmos conhecê-los mais a fundo. Conservamos as óticas cibernética, dinâmica, homeostática e heterostática, sem tentarmos expandi-las, não lhes conferindo a generalidade necessária para descrever adequadamente sistemas que consistam de organismos vivos.

A expansão que proponho é descrever a vida como uma propriedade física de sistemas definidos (ou não-arbitrários). A ponte entre a teoria física e a inexistente teoria da vida é a interação entre a tão chamada "matéria bruta" e a "matéria orgânica". Se tomamos um organismo vivo como um sistema aberto, podemos em princípio conhecer seu conteúdo energético total em um instante qualquer. Ao descrever o que afeta a energia interna de um organismo, devemos levar em consideração a propriedade "viva" do organismo, de maneira totalmente quantitativa. O caráter "vivo" de um organismo vivo, no que quer que consista, existe no mundo físico e portanto deve ser compatível com ele. Em outras palavras, não deve em hipótese alguma violar qualquer lei científica estabelecida, e se aparentar violar, nosso modelo físico atual é que necessitará ser modificado para abrigar as características que a nova "teoria da vida" requeira. Isso requer uma explicação exata do que seja a "vida" em si. Isso não é o que venho fornecer, tanto quanto não pretendo explicar a origem da força gravitacional ou da força elétrica. O que venho é sugerir que admitamos uma nova propriedade física da matéria, ainda inexplicável. A vida teria sua origem numa entidade física, digamos, por exemplo, uma partícula, provavelmente tão distribuída em nosso universo quanto sabemos que são distribuídas partículas e ondas. Assim sendo, mesmo sistemas desprovidos de organismos vivos conteriam um teor de vida quantificável. A vida seria uma propriedade não mais exclusiva de sistemas considerados organismos vivos.

A questão lógica que segue é: por que não observamos esse conteúdo vivo em sistemas compostos exclusivamente de "matéria bruta"? Minha opinião é de que, apesar de a vida ser em princípio "onipresente" (ou, melhor dizendo, distribuída de maneira relativamente uniforme), o conteúdo de vida é evidenciado em sistemas complexos. Se fôssemos dotados de métodos analíticos apropriados, poderíamos talvez mensurar o teor de vida de sistemas inorgânicos, como pedras, rios e estrelas, mas a olho nu e dentro do paradigma em que nos encontramos, somos capazes de enxergar vida apenas em sistemas que possuam complexidade suficiente. Explico com uma analogia: a carga elétrica é uma propriedade fundamental da matéria. Praticamente toda a matéria ao nosso redor é dotada de propriedades elétricas, e no entanto dificilmente somos capazes de notar esse caráter. Apenas somos capazes de perceber propriedades eletromagnéticas da matéria quando os sistemas que observamos exibem certos padrões, por exemplo, orientações paralelas de spins de elétrons em orbitais externos ou o movimento massivo de cargas de forma unidirecional. O comportamento coletivo de muitas partes permite que a manifestação da propriedade elétrica do sistema estudado seja observada e quantificada. Da mesma forma a vida é observada através da interação de muitas partes, e a minha sugestão é que a chave para uma interação que amplifique o nosso poder de detecção da vida seja a complexidade.

Sistemas moleculares são totalmente descritos por nós como autômatos. No entanto, tendemos a aceitar que a vida terrestre teve sua origem em sistemas de nível apenas molecular (por exemplo, o mundo de RNA). Tentamos aplicar a Teoria dos Autômatos a células inteiras já que sentimos que células não estão distantes o suficiente de sistemas moleculares. Ainda não parecemos capazes de perceber o caráter espontâneo da vida em sistemas dessa complexidade, mas em sistemas ainda mais complexos a Cibernética, a Teoria dos Autômatos e a Dinâmica de Sistemas falham em capturar características muitos evidentes e peculiares para nós. Não é necessário dizer que essas teorias "falham", se pensarmos que elas estão apenas incompletas para descrever organismos vivos. Mas mesmo que elas sejam expandidas, o caráter filosófico de "entidades auto-regulatórias" provavelmente passará por uma mudança irreversível.

Neste ponto, sinto que apresentei um argumento satisfatório para convencer de que é possível de fato conhecer organismos vivos, além de delinear as mudanças necessárias na teoria física e, com esperança, inspirar a busca por abordagens que visem averiguar esta hipótese. Existem implicações menos imediatas desse pensamento. Pensemos no que ocorre quando uma quantidade massiva de matéria é aglomerada em uma certa região, uma estrela, por exemplo. Uma estrela é dotada de um campo gravitacional magnificamente forte. Objetos ainda mais massivos, como buracos negros, em seu âmago chegam a nos fazer duvidar da validade dos nossos conhecimentos físicos. Por outro lado, quantidades massivas de cargas em movimento, como o núcleo externo (líquido) da Terra, assim como o interior do Sol e as suas erupções, dão origem a campos eletromagnéticos extremamente potentes. Seguindo a mesma lógica, podemos nos perguntar o que aconteceria caso houvesse um sistema extremamente massivo, mas complexo o suficiente para manifestar vida como ela é atualmente observável por nós. O que seria de um objeto com poder semelhante ao de um buraco negro ou uma estrela, mas com inteligência? E o que seria de nós caso conseguíssemos desenvolver tal entidade num futuro longíquo? Após essas considerações eu não estou mais tão convencido de que a mitologia grega é tão mitologia quanto nos gabamos de considerar que ela seja.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Ideais Humanos

Felicidade, amor, paz, alegria, realização, orgulho, honra, egoísmo, ódio etc etc etc, todos valores que devemos exercitar, e que cuja irrelevância, entretanto, não temos o direito de compreender.

Talvez haja um possível cenário longínquo em que formas de vida olhem para nós e nossos ideais com os mesmos olhos que lançamos à bactérias em placas de petri.

O nosso ideário é transiente, e se uma parte de nós permanecer por bilhões de anos muito semelhante a como é agora, como as bactérias o fizeram, os que virão depois se sentirão na liberdade de nos usarem em troca dos nossos ideais da mesma forma que fazemos com Escherichia coli em troca de açúcar. Nós conduziremos vidas completas sob desígnios impossíveis para nós ao menos imaginarmos que existam (não é exatamente isto que está sendo feito neste texto), desígnios daqueles que não ignoraram uma quantidade de conhecimento maior de uma realidade que se tornou ao mesmo tempo mais complexa.

Isso é que o está acontecendo, na verdade, e é o que sempre aconteceu. A única diferença é que não existe ninguém para definir algum desígnio, as coisas acontecem simplesmente sob a lógica da realidade, ou pelo menos essa é a explicação física até então satisfatória.

Do modo como vejo, ao menos, a lógica da realidade, que é um conceito inventado a totalmente inexistente, é suficiente para mover o universo através da sua sucessão de estados.

P.S.: Nutrir nossos ideais é extremamente importante, contudo. É o nosso nicho e isso tem quase tanta importância quanto a maioria dos bons poetas apontam. Só seria melhor não esquecer dos fatos, especialmente quando fazemos guerras por petróleo ou xenofobia.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Termodinâmica para a vida

Termodinâmica, você nos ensina sobre a inexorabilidade da vida. Não odeio você, mas você muito me entristece, e entristece a todos nós. Você nos permite enxergar a razão pela qual não podemos ter o que queremos, mas apenas o que nos foi dado. A energia livre está a disposição de todos, mas não há nenhuma forma de criá-la, ou de conservá-la. Ela só diminui com o mero passar do tempo. Talvez o passar do tempo tenha alguma relação direta com essa diminuição.

As suas leis são claras, não podemos ganhar o jogo, não podemos empatar, não podemos nem ficar só assistindo. E a medida que o tempo vai passando, o jogo vai chegando perto do fim. Podemos até inventar uma prorrogação, pênaltis, sugando a última gota de energia útil assoprando pelo canudo com um estardalhaço. Mas nossas tentativas fúteis apenas irão nos aproximar mais rapidamente da morte térmica, quando povoaremos um cemitério semelhante a um jardim de estátuas, onde partículas inertes encerrarão toda a memória do que já foi movimento que não poderá jamais ser lembrada. Caso contrário, todos seremos enterrados no interior de um buraco negro inimaginável, onde até o tempo deixará de existir, e, portanto, nosso sofrimento. O que acontecerá após o próprio tempo desvalecer, como poderemos saber? Como poderemos evitar os calafrios mórbidos na espinha ao imaginar a possibilidade? Talvez esse seja o próprio Xeol de que os judeus falam.

Mas não se trata só do fim do tempo, sua inexorabilidade ata nossas mãos a todo momento. Ao existirmos, aproveitamos a energia livre na qual nadamos, mas como não podemos criá-la nem fazer dela o que bem entendermos, porque não somos máquinas cem porcento eficientes, nos limitamos ao que o universo pode nos dar, e não ao que aspiramos. Às vezes temos sorte, e nascemos no interior de um sistema bem organizado. Mas a esmagadora maioria surge no âmago do caos. O caos que só se multiplica, exponecialmente, apesar de qualquer esforço, mesmo que sejamos capazes de o cobrirmos com uma lona barata para não o vermos, mas ele está bem ali na periferia de nossa civilização, e é uma montanha de lixo maior do que qualquer planeta que povoemos. Qualquer estrela que rodeemos. Qualquer buraco negro que exploremos.

O caos cresce ao nosso lado e para sempre será maior que nós, e por ser aleatório, probabilístico, lançará seus tentáculos sobre as pessoas que amamos. E depois sobre nós mesmos. E depois sobre o último fóton. E depois, minha melhor esperança é que ele lance seus tentáculos sobre si mesmo, se devore e vomite tudo aquilo que engoliu, para que o nosso ciclo de perturbação existencial possa ter prosseguimento novamente. Indefinidamente.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

SOBRE VEGETARIANISMO E O DESENVOLVIMENTO DA HUMANIDADE ou SOBRE O ABANDONO DA NATUREZA

I. A ausência de diferenças

Em um post anterior (DA DESUMANIZAÇÃO) descrevi a ocorrência dos fenômenos da consciência e da mente em termos de três níveis distintos de manifestação. Mais do que isso, afirmei que os preceitos então proclamados se estendiam a qualquer forma de vida sensciente conhecida. Justificado nesse embasamento teórico, acredito não haver nenhuma clara distinção entre as formas de vida senscientes conhecidas.

II. Evolução

Em sociologia, existem duas vertentes opostas apelidadas de naturalismo e antinaturalismo, uma defendendo a aplicação do método científico às ciências sociais e a outra tentando separar o mundo natural do mundo social, respectivamente. O Homo sapiens sapiens pertence a uma espécie animal, derivada através da evolução e adaptação, e sujeita à mesma. As inconstantes leis da física que permitiram o estudo biológico que levou a compreensão atual da história do surgimento e do desenvolvimento do ser humano, assim como o método científico utilizado para determiná-las e validá-las certamente se aplicam a qualquer esfera da ciência, seja a esfera natural ou a esfera social, pelo que o Homo sapiens e tudo o que conhecidamente o circunda pertence ao mundo natural. Defendo expressamente, portanto, a aplicação do método científico nas ciências sociais.

Me identifico, contudo, com o antinaturalismo, em certo ponto. A evolução humana neste momento não está mais restrita ao mecanismo genético, mas sujeita às racionalizações da própria espécie humana. Existe atualmente (ou pelo menos há potencial para existir, que precisará ser explorado através das barreiras da bioética – quebrando-as ou estendendo-as) um ou mais mecanismos de evolução que não a seleção natural, tais como uma forma de evolução cultural e a engenharia genética. A capacidade de racionalização da espécie humana lhe confere essas novas propriedades evolutivas, que serão inexoravelmente exploradas por qualquer espécie que atinja essa capacidade.

A evolução humana, no momento atual, está atravessando um período polêmico. Chegou a época em que a racionalidade e a emoção começam a ser confrontados. Por exemplo, no mundo social foram criados construtos para sustentar a moral, que é baseada na emoção. A moral defende a honra, o valor, a benevolência e tantos outros conceitos que derivam de ou suscitam emoções. As emoções, no entanto, não são conceitos bem definidos em termos científicos e parecem elementos acessórios do mundo natural ou da racionalidade. Mesmo assim, em posts anteriores, defendi a manifestação social de emoções positivas baseado em argumentos racionais e científicos, o que ajuda a começar a descomplicar um pouco as coisas.

As emoções parecem ser a chave para o que caracteriza a manifestação intelectual dos animais superiores. A moral, a benevolência, a solidariedade e a cooperatividade transcendem a barreira da virtualidade da mente e parecem se encaixar perfeitamente nas nossas finanças energéticas ajustando a nossa termodinâmica para a estabilidade e a eficiência ideais.

Portanto, venho aqui defender a incorporação das emoções nos mecanismos da evolução humana (de um modo especial, mas também na evolução das outras formas de vida), de modo a extender e atualizar os construtos sociais para que harmonizem as nossas relações intraespecíficas e para que harmonizem também as nossas relações interespecíficas.

III. O Abandono da Natureza

III.I O espaço da moral

Na natureza existem comportamentos selvagens diversos, e nós, como pertencentes à ela, apresentamos os mesmos comportamentos (bem como outros particulares), e estamos sujeitos aos mesmos princípios biológicos (e porque não dizer psicobiológicos). Em um ambiente selvagem, a racionalidade e o medo predominam em função da sobrevivência, dando pouca função a moral. Conceitos como dignidade, vergonha e solidariedade raramente surgem em contextos de ecossistemas selvagens.

Através do nosso desenvolvimento técnico-científico, pudemos expandir a fronteira de nosso nicho de modo a fornecer o espaço necessário para a função dos elementos da moral. O instinto de sobrevivência não mais reduz a prioridade da moral e das emoções, e baseamos a arquitetura de nossa sociedade nesses elementos.

Como venho defendendo e continuarei a defender nos próximos posts, a humanidade apenas progredirá como espécie caso insira os elementos emocionais determinantes de sua psicobiologia nos seus mecanismos de evolução. A nossa evolução intelectual é uma forma de evolução biológica (e é capaz de direcionar esta).

III.II O novo design inteligente

Como esclarecido no post SOBRE A TERMODINÂMICA DA SOCIEDADE, parte 1, as emoções positivas permitem que indivíduos de uma mesma espécie se relacionem de forma que maximizem a eficiência em sua realização de tarefas, tornando a população como um todo um grupo mais estável e flexível e consequentemente resistente. Se uma única formiga não é capaz de construir um formigueiro, bilhões de formigas são capazes de dominar hectares. Se eliminar uma única formiga parece fácil, eliminar todas as formigas não é sequer um ato discutível.

A estabilidade de um grupo também não quer dizer sua estagnação. Uma população estável pode continuar se adaptando, exercendo sua flexibilidade, até que um novo estado de equilíbrio seja atingido. Quando as condições do ambiente forem tais que não seja possível que a população mantenha sua estabilidade, que atinja um equilíbrio, o processo de seleção natural poderá eliminá-la.

Esses são alguns dos novos recursos que herdamos, como animais superiores. Somos umas das muitas espécies que respeitam padrões sociais que conferem resiliência a grupos interespecíficos. O modo de tirarmos proveito dessas ferramentas da evolução é exercitando e desenvolvendo os princípios da moral, da cooperatividade, da harmonização, da benevolência.

III.III Os erros de nossos pais

Baseado nisso, defendo a extensão dos direitos básicos a todos os animais, com adaptações necessárias para que se leve em conta a intelectualidade das outras espécies. Não advogo uma polícia do ambiente selvagem, em que uma espécie interfira diretamente no ciclo da vida para fazer respeitado o princípio do não-assassinato, é necessária apenas uma limitação na conduta humana a casos em que esta espécie se envolva diretamente com outras, em que essas determinadas relações sejam harmonizadas.

Em outras palavras, isso quer dizer que devemos abandonar o comportamento natural (selvagem). Na natureza, visto que o instinto de sobrevivência merece grande prioridade, pouco espaço sendo permitido à moral e às emoções, mata-se, trai-se, desrespeita-se, leza-se, ignora-se o sofrimento alheio em função do próprio bem estar. Há casos frequentes de promiscuidade, conjunta com violência. Todo esse painel inerente ao ciclo da vida deve ser abolido com o surgimento da moral. Não cabe mais aos animais que atingiram nível intelectual suficiente se sujeitarem às mesmas atitudes do clássico ciclo da vida. A tentativa humana de se encaixar no ciclo selvagem leva apenas a frenagem do nosso desenvolvimento.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

SOBRE UM POUCO DA EXISTÊNCIA, PT. II, SOBRE A TERMODINÂMICA DA SOCIEDADE, PT. III OU SOBRE A DICOTOMIA BEM/MAL, PT. II

O ser interage com o mundo físico! O mundo físico faz parte do ser. Nosso conhecimento sobre o mundo físico é evidentemente imperfeito, mas apenas através dele podemos interpretar nossa própria existência de uma maneira plausível. O que acontece quando o ser interage com o mundo físico? Ele respeita as leis desse mundo! É óbvio, o mundo físico é descrito por leis universais, que, por mais que nos forneçam apenas aproximações da verdade, nunca dando uma resposta absolutamente correta (ou filosoficamente correta), são inexoráveis. Essas leis podem nos dar um resultado apenas aproximado, mas um mesmo fenômeno vai sempre resultar numa mesma aproximação, respeitando o erro inerente à observação experimental. Se isso não ocorre, não há motivo para pânico (não demasiado), atualizam-se as leis físicas para que elas compreendam então os novos fenômenos descritos. As leis se tornam tão úteis por esse motivo que servem até para medir os nossos atos.

Ponderemos agora um pouco mais sobre a existência do ser. Algo que nós “sabemos” que não pode acontecer é existência surgindo “do nada” e existência “desaparecendo”. É a primeira lei da termodinâmica. Caso essa lei não fosse respeitada, notaríamos imediatamente: uma chaleira quente poderia de um momento para outro perder calor a ponto de seu conteúdo líquido congelar, ou uma enorme porção do universo (digamos, um milhão de galáxias) poderia desaparecer de uma hora para outra, fenômenos desse tipo poderiam ocorrer. Mesmo que o aparecimento e desaparecimento ocorresse de forma ordenada, não haveria uma razão pela qual tais eventos deveriam ocorrer. Se não há razão, isso significa que o universo poderia desaparecer por inteiro ou surgir novamente sem motivo.

O universo é nosso grande sistema, com seus subsistemas (mencionados no post anterior) “ser” e “vizinhança”. No mundo físico as consequências da complexação do ser vão ser sentidas através do “corpo” e do “meio ambiente” (que não tem necessariamente ligação direta com o ser e a vizinhança). O universo (admite-se) é um sistema isolado, e por ser tratado como um sistema inteiro, entende-se que qualquer subsistema em seu interior seja aberto. Disso tiramos que o ser, a partir de seu nascimento, interage com a vizinhança. Dela ganha informações, armazena-as em si, transmite informações para ela. Para isso, processos físicos definidos tem de ocorrer. O corpo executa tarefas específicas, provocando mudanças na vizinhança, e sofrendo influência dela. Estando os desenvolvimentos do corpo e do ser intimamente ligados, cada transformação do ser implica numa transformação do corpo, mas as transformações do corpo são mediadas por equivalências matemáticas bem definidas. De um lado entram os elementos iniciais, de outro, temos os produtos gerados pelo processo de desenvolvimento e uma quantidade de energia perdida (dissipada) durante esse processo. O valores absolutos de entrada e de saída devem ser iguais, dando um resultado líquido nulo para o processo, dizendo para nós que o processo de transformação demanda uma quantidade de elementos de entrada, uma quantidade de elementos de saída e que a existência total antes e depois do processo é a mesma, respeitando a lógica do universo, sem criar ou destruir existência.

É isso que nós vemos todos os dias. Afim de continuarmos exercendo nossa existência, fazemos o meio ambiente e o corpo passarem por processos de transformação, que vão sustentar o ser. Ao beber água, por exemplo, uma pessoa provocou uma mudança no planeta, reduzindo a quantidade de água potável, provocando uma alteração em seu próprio corpo, aumentando a fração de água que compõe esse corpo etc. A quantidade de água potável inevitavelmente diminuiu, e não há nada que a pessoa em questão possa fazer quanto a isso enquanto mantiver o seu desejo de continuar viva. Após o consumo da água, novas fontes de água precisarão ser exploradas. Para ajudar nessa questão, a água pode passar por um processo de reciclagem, sendo tratada de forma a se tornar reutilizável. O problema com isso é que a reciclagem demanda energia. A água precisa ser reciclada justamente por não poder ser restaurada ao seu estado anterior, após ingerida e excretada, ela passa para um estado diferente. Existe uma barreira que impede que esses dois estados se comuniquem naturalmente. A água livre possui, sob um dos ângulos pelos quais se pode estudar esta questão, um menor conteúdo de energia livre. A energia livre é a chave para um processo de transformação, a energia livre é o elemento consumido diretamente durante tal processo. Utilizando apenas a água poluída em si, com seu conteúdo de energia livre inferior, não podemos apenas com isso restaurá-la a um estado de conteúdo de energia livre superior. Precisamos, claramente, de mais energia livre para isso! A principal fonte de energia livre da qual dispomos atualmente é o Sol. À cada instante, sua entropia vai aumentando, e parte de seu conteúdo de energia livre é emitido para a Terra, que é então utilizado para restaurar as coisas terrestres aos seus estados mais convenientes. É claro, outra parte importante do conteúdo energético total do Sol (uma quantidade de energia que foi subtraída da energia total do Sol para fornecer sua energia livre – ver descrição de “Energia livre” na internet, caso necessário – ) foi expelida na forma de calor, uma forma não-livre de energia.

Às nossas custas e às custas do resto do universo, o Sol se deteriora. E é isso que rotineiramente ocorre. Para que um subsistema continue estável (em outras palavras, você continue vivo), o meio ambiente se deteriora. E a pior parte: ele se deteriora “mais que o necessário”, pois parte da energia que ele fornece não pode ser aproveitada. Essa energia perdida impede que subsistemas se mantenham estáveis para sempre, reciclando sua própria energia (ver “Máquina de movimento perpétuo do segundo tipo” na internet). Além de se deteriorar mais que o necessário, o meio ambiente se deteriora em uma taxa maior a cada vez que retiramos energia dele (o que não será comentado em mais detalhes).

Na natureza, essa relação deteriorante indivíduo-meio ambiente é onipresente. O fato de estarmos vivos implica imediatamente na destruição de alguma porção do universo para a construção de nós mesmos. Às vezes, destruímos existência “inanimada” para isso, como geralmente os autótrofos fazem. Quando fazemos isso, destruímos parte dos recursos que outro indivíduo utilizaria para sobreviver. Na maioria dos casos não parece muito (um copo de água não será provavelmente a causa de morte por desidratação de outra pessoa), mas em alguns outros essa relação pode significar a sobrevivência de um indivíduo sobre a morte de outro (pense em uma fila para transplante de órgãos). Outras vezes destruímos outros seres vivos, o nicho dos heterótrofos.

Em nossa vida imersa no senso comum, a percepção dessas leis e relações universais parece muito diluída em abstrações desnecessárias, quando queremos resolver problemas práticos, tais como dirigir até o trabalho.

A locomoção é uma relevante questão de logística. Em nossa sociedade complexa e organizada, indivíduos precisam se locomover de forma ordenada de modo a não formar “nós”, congestionamentos, bloqueios. Nosso desenvolvimento muito se atrasaria sem uma eficiente engenharia de trânsito. O sistema de trânsito leva em conta a existência de muitos veículos viajando através das vias, cada um respeitando o espaço limite um do outro, mantendo uma distância segura e respeitando a sinalização. É tudo muito elegante quando descrito de um ponto de vista macro, apresentando a visão geral do projeto de engenharia de trânsito clássico que é realizado mundo afora. O problema é que cada indivíduo que conduz um veículo respeita as leis físicas acima das leis do trânsito (obviamente, as leis da natureza são inexoráveis, as leis criadas por seres humanos...) e vai procurar um estado de conformação mais estável. Por exemplo, andar muito lentamente exige maior consumo de energia por parte do condutor (e também por parte de muitos carros), já andar numa velocidade mediana ou alta sem muitas interrupções demanda menos esforço por parte do condutor. Na grande maioria dos casos, um condutor vai tentar fugir de um congestionamento ou outra barreira que o impeça de atingir esse estado mais estável, em que ele não esteja muito lento. Um outro condutor poderia estar numa situação semelhante, na mesma via ou em uma via próxima. Como eles não precisam ter conhecimento do estado um do outro, na tentativa de se libertarem de seus estados menos estáveis (acelerarem) ou após terem se libertado (saído do congestionamento), eles podem colidir. Mesmo respeitando as leis de trânsito, esse tipo de evento pode acontecer (e acontece!).

Olhando por outro ângulo, o deslocamento humano ou de bens para o uso humano ou de indivíduos vivos para a exploração humana demanda o uso de veículos. Veículos de tração humana não são suficientemente eficientes. Veículos de tração animal, além de não serem eficientes, trazem prejudício ao animal. Daí pra frente, uma solução levará a um novo problema. Os veículos de combustão interna funcionam às custas de um mecanismo que emite poluente à atmosfera. As pessoas geralmente precisam se deslocar, apesar da boa intenção de utilizar o veículo poluente com o único intuito de ir para o trabalho e “ser produtivo”, o pequeno prejuízo é inevitável. Com o tempo, todo o acúmulo de poluentes emitidos pelos veículos que carregavam pessoas com intenção de se deslocar de casa para o trabalho e de volta para casa acabou levando a alterações climáticas que afetam pessoas em lugares variados pelo mundo. Novas formas de combutível, como o biodiesel, apenas reduzem o prejuízo a níveis suportáveis. É preciso extinguir a flora local para cultivar plantas que possam ser aproveitadas para a produção de combustível. Isso faz pressão sobre a utilização de terras para o cultivo de produtos agrícolas para o consumo humano (alimentos).