segunda-feira, 4 de maio de 2015

Justiça “se e somente se” Solidariedade & Respeito à liberdade individual não garante justiça

Como se pode ter percebido, o objetivo deste texto é argumentar a favor de uma proposição, e a partir dela tirar uma conclusão bônus que diz respeito principalmente a lutas libertárias. Antes de tudo, precisamos acertar as definições dos conceitos com quais estamos lidando. “Justiça” é o conceito chave. Para ela, existem várias classes diferentes de interpretação. Em um nível básico, “justiça” encapsula a ideia de consistência e conduta moral. A moral impõe a justiça, e nem a moral nem a interpretação da moral podem ser ambíguas, tratamentos baseados na moral devem ser consistentes e respeitar precedentes. Eticamente falando, a ideia básica de justiça é formalizada através de um “princípio de equidade”, uma definição que pertence a uma discussão muito recente provavelmente catalisada por Herbert Hart em 1955. Em termos sociais, práticos, ocidentais e contemporâneos, “justiça” tem encerrado a ideia de que tratamentos ditados pela lei devem ser proporcionais aos seus elementos motivadores. Não se trata apenas de punição, e por isso escolhi as palavras com cautela, mas na maior parte se trata de punição proporcional ao crime cometido (“punição” aqui pode tanto ser lida como “consequência social” [sentido restaurativo] ou “resposta da sociedade” [sentido punitivo]). Durante a discussão a seguir, vamos utilizar a seguinte definição, mais próxima da ideia básica: “’Justiça’ é a qualidade de um tratamento de preservar a consistência do sistema ético que o contextualiza”. Por exemplo, em sociedades antigas, a ética da Lei de Talião proclamava que tratamentos empregados por partes lesadas (ou representantes delas, ou pelo estado) deveriam espelhar o tratamento recebido. Portanto, se por acaso uma pessoa declarada inocente tivesse um olho arrancado, qualquer tratamento que diferisse de retirar um olho do perpetrador seria considerado injusto sob essa definição. 

Solidariedade é uma ideia diferente, ela encapsula as ideias de união e comunhão. A solidariedade é utilizada para capturar os fatores motivadores de atitudes entre indivíduos, excluindo-se os motivadores que se encerram no indivíduo (como o egoísmo e a ganância). Claro que isto não são explicações preto no branco, mas vamos utilizar a seguinte definição de solidariedade: “’Solidariedade’ é o conjunto de fatores motivadores de atitudes plurais entre indivíduos que não tem como âmbito o benefício do indivíduo, ou de um, ou de cada indivíduo, mas o benefício da pluralidade em si. ” Necessariamente, a solidariedade conforme definida não pode ser tida como característica intrínseca do indivíduo, ela pressupõe um nível hierárquico superior, uma comunidade. De um modo geral, atitudes altruístas são tidas como solidárias.

Por acaso, justiça também é um conceito que pressupõe uma comunidade de indivíduos. Um indivíduo jamais teria a chance de ser justo caso fosse impedido de interagir com outros indivíduos. O que ocorre na realidade é que ao longo da história as pessoas tiveram que se preocupar com o tratamento que receberiam de outras pessoas e os tratamentos que elas deveriam oferecer, sempre de forma que o indivíduo preserve a si mesmo (dentro de cada interpretação particular, claro, inclusive aquelas em que a honra do indivíduo tem precedência sobre sua vida). Esse viés egoísta deriva do instinto natural de autopreservação. O processo de formação de sociedades, quaisquer que sejam suas motivações, certamente inclui a garantia de segurança do indivíduo dentro da comunidade organizada. Com o tempo, sistemas éticos são estabelecidos para cada sociedade enquanto ela amadurece, e esses sistemas promovem a segurança enquanto asseguram a consistência da conduta dos indivíduos membros da sociedade. Pois sendo as atitudes de cada indivíduo previsíveis dentro de certa margem, um plano seguro para a conduta de cada um pode ser traçado.  A justiça entra nesse contexto como a qualidade buscada para guiar e manter esse sistema ético consistente. Note que como a ética de cada sociedade varia histórica e geograficamente, a qualidade de justo pode não ser preservada quando os mesmos tratamentos são analisados por diferentes sociedades. Note também que desde os primórdios da civilização, o fator motivador da busca pela justiça pode tanto ser de viés egoísta quanto altruísta, mas a função desempenhada pela justiça na sociedade foi inicialmente a de proteger os seus membros. E a segurança, um motivador do indivíduo para ingressar na sociedade, tem um viés egoísta derivado do instinto de autopreservação. 

Contudo, esse viés egoísta é por vezes contrabalanceado com um altruísmo, que gera atitudes solidárias. Atitudes solidárias podem ser vistas como genuínas ou hipócritas, vivemos uma grande quantidade de civilizações complexas, mas o fato a ser extraído é que existem motivações que transcendem o indivíduo e colocam como alvo toda a comunidade. No entanto, a busca histórica pela justiça, como discutido acima, vem de uma motivação de preservação do indivíduo. Como consequência, as leis ou o sistema ético das sociedades foram redigidas de uma maneira centrada no indivíduo e de uma natureza caso-a-caso. Historicamente, as leis ditam os direitos e os deveres de cada indivíduo. Em outras palavras, ainda historicamente falando, o exercício da lei, o exercício da justiça é localizado no indivíduo pelos sistemas éticos das sociedades. Uma consequência dessa “localidade” do exercício da lei é que os conflitos são resolvidos isoladamente, com participação apenas das partes envolvidas e da instância local do aparato legal que as ampara. Isso leva a uma contextualização extremamente particular de cada conflito, o que leva o exercício da justiça a passar por distorções entre cada resolução de conflito. Sentenças e tratamentos variam em proporcionalidade dependendo de cada caso específico, como consequência das diferentes subjetividades das partes particulares envolvidas. Em sociedades não perfeitamente democráticas (ou seja, o caso prático de sociedade ocidental), isto necessariamente leva a um distanciamento do ideal de justiça e da quebra da consistência do sistema ético de cada sociedade, em maior ou menor grau dependendo de fatores altamente divergentes como fiscalização, corrupção e satisfação popular. Pode-se argumentar que o ideal de justiça e de consistência máxima da aplicação do sistema ético é inatingível, mas também se pode argumentar que é possível e prático nos aproximarmos quantitativamente e significativamente do ideal de justiça mesmo jamais o atingindo. 

O problema da “localidade” do exercício da lei, eu friso novamente, é histórico. Recentemente tem havido esforços para incluir um novo paradigma que olha para o sistema ético em níveis hierárquicos de comunidades e grupos. Não se trata de leis de um grupo que se aplicam a cada indivíduo, mas leis de grupos sobre grupos interagindo com outros grupos, sem necessidade de recorrer ao nível do indivíduo (por exemplo, leis internacionais que proíbem o armazenamento de armas químicas). Em todo caso, voltando ao problema da localidade, ele se concretiza como um problema não apenas ao apresentar dificuldades ao aparato da justiça, mas mais fundamentalmente ao falhar em motivar a busca pela justiça dentro de grandes comunidades. Em comunidades pequenas é fácil controlar distorções, de modo que sociedades de pequeno porte são classicamente vistas como igualitárias ou pelo menos eticamente consistentes (por exemplo, sociedades indígenas). Mas a localização do sistema de justiça no indivíduo acoplado ao interesse de autopreservação falha em motivar um aparato que olhe os conflitos sociais sob a perspectiva de um nível organizacional superior. Como cada parte envolvida está interessada em resolver o seu próprio conflito, existe a crença de que todos os conflitos são resolvidos através da aplicação sistemática do aparato local de justiça a cada caso. Não surge a partir daí a motivação para a criação de um novo aparato que analise as distorções na aplicação do sistema ético através de toda a sociedade, ou que garanta a consistência dele. 

Todavia, nós sabemos que esse problema não foi totalmente negligenciado historicamente. Sabemos inclusive que nas últimas décadas esse problema tem ganhado atenção muito especial, e o estado tem sido incumbido de legislar sobre grupos e segmentos inteiros da sociedade. A motivação para essa mudança gradual pode novamente ter ou não ter sido de natureza egoísta ou altruísta. Mas a aplicação do aparato de justiça com motivações centradas no indivíduo, como espero ter sido claramente demonstrado acima, sempre leva a uma fuga da consistência do sistema ético da sociedade, por ser uma ação de âmbito local. No sentido de realmente aproximar a sociedade do ideal de justiça e consistência ética, o processo centrado no indivíduo (egoísta) não é suficiente. Faz-se necessário um processo solidário em que o interesse não é o de proteger o indivíduo, mas o de proteger uma comunidade. A justiça como definida acima age no contexto de uma sociedade, mas permite ser aplicada a indivíduos e encerrada neles. Desse modo, ela permite a localidade do aparato de justiça, mas falha em motivar um aparato de fiscalização que garanta a consistência do sistema ético através da sociedade. Já a solidariedade pressupõe um esforço conjunto. Quaisquer sejam as motivações, a solidariedade caracteriza um processo que precisa levar em conta um grupo de indivíduos e suas interações, sem poder reduzir o grupo a cada membro. Neste sentido, “leis” solidárias são fortemente motivadas a observar todo o aparato de justiça e garantir a consistência através de todos os julgamentos, efetivamente aproximando a sociedade do ideal de justiça e consistência ética. 

De posse dessas conclusões, podemos tentar imaginar os cenários que levaram os ancestrais da nossa espécie à sociedade contemporânea, no contexto da justiça. Na época dos nômades, em comunidades pequenas, o instinto de sobrevivência era de importância sobremaneira. Além disso, era fácil manter o controle da conduta de cada indivíduo, já que os grupos possuíam tamanhos gerenciáveis. Em contrapartida, grupos diferentes não possuíam motivações para interferir no processo de justiça de outros grupos, e “guerras” por recursos podiam ser travadas. Com o advento do sedentarismo e do comércio sociedades diferentes tiveram de estabelecer acordos de respeito e tratamento justo. Mais além, na possibilidade de perder o benefício do comércio caso uma sociedade fosse prejudicada, outra sociedade se dispunha a protegê-la e ajudá-la de diversas formas. Com a globalização e após incontáveis conflitos violentos, as sociedades se aperceberam da necessidade de legislar sobre segmentos da população humana que transcendem o indivíduo e a soberania de povos e nações. Entre os esforços advindos dessa constatação, temos a Declaração Universal dos Direitos Humanos, por exemplo, mas também temos tratados de comércio internacionais e tratados sobre conflitos bélicos. Muito do que é pertinente a este texto parece dialogar com o debate sobre as diferenças entre o “altruísmo” e o “egoísmo”, entretanto, ressalto que a conclusão desse debate paralelo não é relevante para a presente discussão. Solidariedade e Justiça como definidas aqui não dependem das motivações que levam a transformações sociais, elas descrevem o processo que vem após. A solidariedade, quer tenha raiz psicológica no egoísmo ou não, é um processo que envolve ações descentralizadas do indivíduo, e essas ações são essenciais para a aproximação da sociedade de um ideal de justiça e ética. As várias legislações internacionais que foram passadas nas várias décadas recentes podem ter motivações das mais diversas, mas o processo de aplicação do aparato de justiça que as invoca é “solidário” de acordo com a definição aqui adotada. Como corolário desta conclusão, fica novamente a conclusão de que o aparato de justiça centrado no indivíduo não é capaz de garantir a justiça como consistência na aplicação da ética de uma sociedade. O respeito à liberdade de cada indivíduo não garante que no caso geral todos os indivíduos sejam respeitados, pois distorções desses conceitos são possíveis dentro de cada julgamento. É preciso legislar sobre organizações superiores em complexidade a indivíduos para garantir que as liberdades previstas no sistema ético em questão sejam preservadas consistentemente através de toda a sociedade.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

SOBRE A EXTENSÃO DA SUA INFLUÊNCIA

Recentemente, abordagens holísticas tem ganhado pauta em muitos aspectos culturais humanos. Especialmente com a ascensão da ecologia e da conservação ambiental, nós temos tentado cada vez mais medir o impacto de cada uma de nossas atividades através de toda a biosfera. Existem centenas de medições de parâmetros globais sendo realizadas a cada dia, istoé, existem milhares de aparelhos dos mais diversos tipos espalhados por toda a superfície terrestre fazendo medições de características climatológicas, meteorológicas, topográficas, geográficas e astrofísicas, e existem grupos de pesquisa fazendo censos locais em seus continentes de origem acerca de parâmetros sociológicos, psicológicos e políticos. Com a maturidade da inferência estatística e sua aplicação automática no método científico, relações cuidadosas e abrangentes tem sido feitas entre esses e outros parâmetros de áreas diferentes e diversas. Por exemplo, não é incomum ler manchetes do tipo "Pesquisadores descobrem relação entre taxa de escolaridade média e taxa de reciclagem de material reaproveitável".

Obviamente, isto não tem afetado apenas a pesquisa científica. A religião, a mídia e as forças econômicas todas tem se ajustado para comportar este novo tipo de pensamento. Existe um novo tipo de crença popular, muito oposto ao que se pensava apenas alguns séculos atrás, de que as ações de um único indivíduo podem ressoar por toda superfície do planeta ou até mesmo através de todo o tecido do espaçotempo e influenciar todas as coisas até mesmo à um instante indefinido na história. Existem muitas origens para esta crença. A descoberta de sistemas turbulentos e caóticos por pesquisadores como Lorenz, que estudava meteorologia nos anos 60 e descobriu a versão técnica e rigorosa do mal-interpretado "efeito borboleta", foi certamente um dos passos mais importantes. O lançamento da Teoria de Sistemas por Bertallanfy também ajudou a aproximar muitas áreas do conhecimento. Turing acelerou o aparecimento dos computadores e consequentemente da cibernética, abrindo espaço para a interação de profissionais de todas as áreas acadêmicas do conhecimento e até mesmo de alguns gurus da filosofia popular, como Huxley, Asimov e Sagan. Shannon, desenvolvendo a Teoria da Informação, também aproximou muitos campos do conhecimento e conectou pela primeira vez a energia do mundo físico com a informação do "mundo das ideias" (que é armazenada no nosso cérebro através de memórias). Ao mesmo tempo, pioneiros na área da psicologia e psicanálise como Skinner e Freud provaram que a psique humana em muitos de seus aspectos peculiares pode ser estudada de uma forma analítica sob o método científico.

Todo esse amálgama de conhecimento redundante nos levou a crer que elementos de um sistema de uma área do conhecimento podem influenciar elementos de sistemas de outras áreas. Mas, qual será o real limite disto, se é que ele existe? Até onde o bater de asas de uma borboleta pode influenciar o destino dos objetos à sua volta? Vamos primeiro analisar a metáfora do efeito borboleta. Esta metáfora foi elaborada para ajudar a nos referirmos ao regime caótico de alguns sistemas físicos. Em posts anteriores exploramos o significado de sistemas. Um regime caótico é um comportamento de um sistema ao longo do tempo em que ele exibe características pertinentes ao caos matemático. Esse caos pode (mas não necessariamente deve) ser encarado como uma formalização do conceito de caos ao qual estamos acostumados: um sistema caótico geralmente parece complexo e desordenado aos olhos humanos. Matematicamente, o caos não é rigorosamente definido, mas relaciona sintomas que podem ser detectados no comportamento de sistemas complexos e nos ajuda a explicá-los. Entre esses sintomas estão: forte sensibilidade à condição inicial à qual o sistema foi submetido (por exemplo, ao se colocar dois barquinhos de papel sobre uma corredeira, bem perto um do outro, é certo que as trajetórias dos barquinhos serão bastante diferentes apesar da origem próxima, e as trajetórias podem até se encerrar uma longe da outra); a história ou trajetória que o sistema descreve ao longo do tempo é praticamente imprevisível (mais uma vez, se colocarmos um barquinho numa corredeira, percebemos que a corredeira é tão turbulenta e existe tanta variação que é praticamente impossível dizer qual caminho exato o barquinho vai descrever); intuitivamente, essas são as duas principais características de sistemas caóticos. Mais alguns exemplos de sistemas caóticos incluem: o clima terrestre, as asas de um avião e o ar em volta delas, a dinâmica de algumas populações biológicas e o padrão de disparo de alguns neurônios do cérebro humano.

Vamos relembrar a metáfora aqui: "Um bater de asas de uma borboleta em Beijing pode causar um dia de chuva ou de sol no Central Park". Porque a metáfora do bater de asas foi elaborada? Foi para mostrar a importância de uma condição inicial. A condição inicial seria o vento gerado pela borboleta, que teria consequências amplificadas na atmosfera terrestre e imprevisivelmente acabaria afetando correntes de ar por todo o globo. É claro que esta metáfora tem limitações fortíssimas. Relembre que, na "definição" de caos, não falamos sobre amplificação em nenhum momento. Na realidade, o que precisa acontecer para que um sistema apresente comportamento caótico é que exista um estado do sistema que sirva como "estado de equilíbrio", só que de uma maneira tão complexa que o sistema nunca consiga realmente atingir este estado e fique transitando indefinidamente numa região histórica ao redor dele. A imprevisibilidade surge daí: o sistema nunca fica "quieto", ele nunca para de se "comportar mal", ele está sempre evoluindo e isto pode se dar de infinitas maneiras, a depender das infinitas condições iniciais. Portanto, estímulos pequenos como o bater de asas de uma borboleta podem até alterar um pouco as condições iniciais do "vento local", mas, já que de qualquer forma o sistema (a atmosfera) vai transitar em torno de um "estado de equilíbrio" que é inalcançável, mas bem definido, até que o bater de asas não vai ter tanta influência assim. Se ele não for muito grande, a história da atmosfera pode até ser diferente, mas não vai ser significativamente diferente: a influência pequena do bater de asas da borboleta vai ser absorvida ao longo das incontáveis interações com correntes de ar de outros eventos na atmosfera muito antes que o vento chegue ao outro lado do globo.

Portanto, podemos meio que por uma pedra sobre este tipo de influência universal: o efeito borboleta é real, mas o modo com que influenciamos o universo ao nosso redor geralmente é bem mais sutil e complicado do que a crença popular costuma colocar. Porque somos apenas uma parte de um sistema composto por milhões, trilhões, zilhões, incontáveis outros componentes, cada um com sua parcela de influência. Este é o ponto de vista da física clássica, determinística, onde todos os elementos tem características bem definidas e podemos "prever o futuro" se soubermos a posição e a velocidade de todas as partículas do universo. Basicamente, este ponto de vista não impõe limites no alcance da influência de um único indivíduo: dado tempo suficiente, ondas gravitacionais resultantes do movimento do seu corpo poderão atingir todos os cantos do universo. Mas existe a imposição sobre a magnitude dessa influência, que, para cada indivíduo, é fortemente contrabalanceada pela complexidade do mundo. Para realmente efetivar mudanças grandes e significativas na biosfera, indivíduos provavelmente precisam orquestrar ações em grandes números e de maneira sistemática, sendo quase sempre incapazes de, sozinhos, exercer influência significativa de longo alcance. Este ponto de vista é, portanto, bastante centrado na Teoria do Caos.

Mas existe outro paradigma no estudo de sistemas físicos: a física quântica. Ao contrário da física clássica e da física relativística, que são determinísticas, a quântica é probabilística. Isto quer dizer que, dados alguns problemas fundamentais como a posição e velocidade de uma partícula, ou as diferentes formas em que ela pode se encontrar, não é possível prever com certeza em que estado ela se encontrará no momento da observação: no máximo podemos dizer com que frequência a observaremos em um determinado estado. A física quântica não foi conciliada com a Teoria do Caos, nem com a Teoria da Relatividade, e geralmente se aplica a sistemas de escala subatômica. Outra característica fundamental da física quântica está no seu nome: ela admite que energia e informação são transmitidas de maneira quantizada, isto é, transferências de energia e informação são realizadas de maneira discreta, em unidades básicas bem definidas, em pacotes (quanta) de magnitude regular e restrita. Por exemplo, se incidirmos a luz de uma lanterna sobre uma placa de metal, fótons partirão da lâmpada e poderão ser absorvidos pelos elétrons da placa. Se a luz for muito fraca, os fótons serão de baixa energia e não conseguirão ser absorvidos pelos elétrons. Não importa que eles cheguem perto da energia necessária, eles precisam ter uma quantidade fechada bastante exata de energia para excitar esses elétrons. Alguma energia a menos e eles são refletidos pela placa. Alguma energia à mais e eles irão interagir de outra forma com os átomos metálicos da placa, ao invés de serem simplesmente absorvidos. Na física clássica, em contrapartida, que considera o feixe de luz como um objeto "contínuo", um aumento proporcional na intensidade da luz da lanterna leva a um aumento proporcional no aquecimento da placa metálica.

Devido à essa natureza discretizada, quantizada da física quântica, somos dotados de um novo ponto de vista para analisar a influência de um indivíduo sobre o seu meio. O caos e a turbulência já não se aplicam facilmente. Para começar, vamos tratar da forma mais simples de influência: transferência de informação. Neste contexto, uma transferência de informação é constituída quando uma alteração no estado de um sistema está correlacionada com a alteração no estado de outro sistema. Por exemplo, se você vibra uma corda no violão, um ouvinte receberá o sinal sonoro e o seu estado mental mudará para comportar a informação de uma nota musical. A propagação desse sinal sonoro se dá da seguinte forma: devido à corda ter sido vibrada num espaço tridimensional, o sinal sonoro se espalhará com a mesma velocidade inicial em todas as direções a partir do epicentro da vibração (vamos supor sem perda de generalidade que o sinal se origina de um único ponto). Dessa forma, a energia aplicada no ato de vibrar a corda será distribuída em uma onda de formato esférico, que se expande gradativamente em todas as direções de acordo com a velocidade do som no ar. À medida que a esfera cresce e a primeira frente de onda (a superfície da esfera) avança, a energia aplicada no ato de vibrar é espalhada uniformemente sobre essa frente de onda. Como a corda mantém a vibração por um certo tempo, haverão frentes de onda subsequentes, cada uma sofrendo os mesmos efeitos que a primeira frente de onda sofre. Quanto mais longe o som se propaga, maior fica a frente de onda (superfície da esfera), mais dissipada fica a energia ao longo dessa superfície e portanto mais fraco fica o sinal sonoro, e por isso escutamos um som com menos intensidade quanto mais distantes estamos dele. De acordo com a física clássica, essa intensidade sonora deveria ficar indefinidamente pequena de acordo com a distância percorrida pela onda, sem limite de propagação enquanto existir ar para manter a onda. No entanto, de acordo com a física quântica, quando o ouvinte se posicionasse longe o suficiente do violonista, a energia retida na frente de onda seria tão baixa (devido à dissipação excessiva) que ela seria incapaz de excitar as partículas de ar subsequentes, e a onda "morreria". O sinal sonoro efetivamente morreria. O ouvinte estaria, portanto, fora do raio de influência sonora do violonista. Verdade seja dita, um sinal sonoro, de um modo geral, não é um exemplo adequado de um sinal quântico, pois um sinal sonoro envolve a vibração de muitos átomos, enquanto que a física quântica se preocupa com partículas individuais. Mas utilizei deste exemplo para tornar mais palpáveis as limitações que a quantização da energia impõe. Um de seus principais efeitos é de impor o limite do alcance de um sinal que se propaga em um meio. Ondas eletromagnéticas se comportam exatamente dessa forma: apesar de jamais se dissiparem no vácuo, elas se comportam de maneira perfeitamente análoga ao exemplo da onda sonora quando propagadas em meio material. Isso ocorre, por exemplo, em águas profundas, à mais de 200 metros, onde a luz não chega. A luz é totalmente absorvida pelas camadas superficiais de água.

Fora isso, existem muitos outros efeitos que a discretização da energia provoca que fazem com que, mesmo no vácuo, ondas eletromagnéticas não sejam detectáveis à distâncias muito longas. Por exemplo, devido à frente de onda de um pulso eletromagnético ser quantizada, à longas distâncias o sinal luminoso se torna "ralo", descontínuo. Muitas regiões do universo não chegarão a receber o sinal luminoso emitido de uma fonte qualquer de luz. Aqui, do ponto de vista quântico, observamos mais uma imposição limitante sobre a nossa capacidade de influenciar o "mundo" à nossa volta. De acordo com a física quântica, certos lugares jamais receberão nossos sinais. A nossa influência não atingirá esses locais. E para um ser humano, sinais quânticos tem um alcance particularmente curto!

Disto isso, temos agora o que podemos chamar de duas lentes: a visão macro, da Teoria do Caos, e a visão micro, da física quântica. A visão micro parece nos servir meramente para descrever o mecanismo fundamental de influência de um sistema sobre outro, enquanto que a visão macro é mais adequada para a apreciação de problemas com aplicação prática para nós, humanos. E é através dessas abordagens, especialmente a macro, que percebemos que a nossa influência não só é muito limitada, como é também complicada, sutil e muitas vezes imprevisível. Um indivíduo não é capaz, por conta própria, de assumir a total responsabilidade por uma grande mudança, apesar de que ele possa servir como estopim para uma, dadas as condições ideais. E essas condições, ideais ou não, dependem estritamente da interação de um número exorbitante de outros indivíduos e outros elementos constituintes do sistema. Grandes mudanças históricas não dependem só do ímpeto de uns poucos indivíduos, mas principalmente da conversão e ação simultânea de uma grande quantidade de indivíduos. Mesmo que alguns indivíduos sirvam como estopim para uma mudança, o sistema não pôde ter sido preparado para a mudança unicamente por responsabilidade deles, pois estes também receberam influência do sistema, por não serem isolados. Para entender mais sobre como um indivíduo pode ser colocado numa posição de estopim, leia sobre Criticalidade Auto-Organizada.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

ON NON-HUMAN PERSONS

To me, there's a clear difference between a person and a human being. Sometimes, we can see persons belonging in our culture that are not human. Jesus is treated as a person, though he's not human. In fiction and fantasy, aliens and sometimes robots are treated as persons, though they're also not human. Legally, corporations are can be treated like persons, though they're strikingly inhuman. Therefore, an urge can be felt to define the object "person" more broadly.

Dictionary.com promptly offers a very suitable alternative (as of Jan/2014):
"4. Philosophy . a self-conscious or rational being." So, in addition to mean human beings, such philosophical definition extends to entities that *exert rationality and own a well-defined, self-aware individuality*. Corporations, for example, have a very particular way to approach situations in a rational way, take responsibilities as an established entity and distinguish themselves from other companies and the rest of other persons (clients, inverstors, politicians etc). They are very self aware and, moved by market or social pressures, exercise empathy or egotism, as the very literally big and complex persons that they are.

The importance of this search for a renewed definition of the idea of a "person" stems from the cultural transition animal species as a whole are going through in these very times. Lead by humans, Earthling life forms are starting to be recognized as empathetic, rational, self-conscious entities that have enough in common with "human persons" in a sense that they inspire respect, lest we want to be inconsistent with our empathy for beings of the same species as ours. Simultaneously, we prepare for the possibilities of contact with extraterrestrial intelligence (and most prominently the want for such contact), and also prepare for the rise of artificial intelligence.

These last two cases, aliens and robots, inspire very intense and interesting reactions in us. These entities are predominantly portrayed in conflict with humanity, mainly oppressing humankind, but sometimes being oppressed by us. Works of fiction explore the notions of basic rights, privileges and emotions inherent to complex animals on planet Earth, which may be in discordance with the sociality of such inhuman entities. Often, humans are portrayed as fighting for their privilege to exist, amidst an universe of conscious entities, leaving behind "antiquated" notions of self and intelligence when needed for survival. These thought experiments demonstrate an urge for the preservation of intelligent, emotional life in its diverse forms, if not all life.

The consequence of not including these emerging intelligences within the "person" set  is tyranny. Not that tyranny is unacceptable by human social standards as of today, but it seems to be deemed as a "dated", inefficient posture towards sociology. Looking back in history, we note that the "dehumanization" of afro-descendants facilitated their slavery. Even an entire pseudo-scientific field, phrenology, was devised to purport the idea that the afro-descendant constituted a puny strain of the human species.  It may be argued that a similar form of discrimination is directed toward the poor and the criminals, so that arguments such as "[he/she] is not human for having killed another human, therefore is deserving of death" can be devised.

Whatever forces drive us to maintain the "personal status" within humankind, they are certainly hindering our cultural and scientific progress. As is with any biological force, its aim is protective and geared towards preservation of the family (the familiar pool of genes). We have broken many of these instinctive urges throughout or development as a society (we aren't hunters-gatherers anymore, for instance), and can only evolve towards complexity by surmounting these barriers that dominate simplistic societies. Before we gain hold of too much power for our theoretical understandings, we better make sure that no one is tyrannized as people were during periods such as slavery and the holocaust.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

OS PENSAMENTOS ZERO-DIMENSIONAL E LINEAR

Certamente toda nação sofre deste mesmo problema. Em maior e menor grau, em áreas similares ou diferentes, populações do mundo todo e também pessoas de todas as redes sociais exibem este tipo de comportamento. Porém, como residi quase a vida inteira no Brasil, me atenho a falar neste texto apenas da pátria mãe, inclusive de uma das poucas populações a quem este idioma é acessível.

O objetivo deste texto é alertar que o modo de pensar da sociedade é deficiente. E que isso necessita ser corrigido para suprir a demanda da própria sociedade por direitos humanos, dignidade e respeito à liberdade. Qual é então o problema, a deficiência?

É ao mesmo tempo mais cansativo e mais didático iniciar pelas definições. Como o entendimento é mais importante, é com definições que prossigo. Os  conceitos  mais importantes que precisaremos são  os de sistema, função e dimensão. Comecemos antes pela base (de toda a matemática  moderna). Será rápido. Um conjunto é  uma  coleção, família ou grupo de objetos, elementos ou coisas. Os elementos de um conjunto podem eles mesmos serem outros conjuntos  (mas leia sobre o paradoxo de Russel). Um sistema é um conjunto de elementos e de relações que esses elementos mantém entre si. Um sistema é qualquer grupo de objetos que exercem influência entre si. Um sistema pode ser o seu corpo, o sistema solar, um motor de carro, o universo, uma pedra, uma família, um livro, uma frase... A melhor maneira de detectar um sistema é notar que ele é "divisível" e muda com o tempo. Por exemplo, uma sensação de toque não constitui um sistema, mas uma mão e uma perna sim. Estamos acostumados a pensar em sistemas de forma muito simplista, por exemplo, a rede de telefonia brasileira constitui um sistema complexo, e no entanto no nosso dia a dia pensamos nela como se ela se resumisse apenas ao celular que liga e ao celular que recebe a ligação. Sequer pensamos que o celular é um sistema complicado de muitas peças eletrônicas com vários "cérebros" robóticos e diferentes linguagens de programação embutidas. Chamamos a imagem de um sistema que formamos em nossa cabeça de modelo. Por exemplo, se um telefone celular é um sistema, nosso modelo de um telefone celular é um bloco de plástico com uma tela LCD que emite e recebe sons. E no entanto sabemos que um telefone celular é muito mais do que isso, mesmo que não saibamos exatamente o quê. De uma forma ainda mais simples, um sistema é o que realmente é e um modelo é o que achamos que é.

Figura 1. Um sistema é um conjunto de partes de relacionadas, e um modelo é uma simplificação do sistema que formamos em nossas mentes.

Além das definições de sistema e de modelo, precisamos definir as relações e algumas formas de como elas podem se dar. Relações entre elementos de um sistema são interações, influências, trocas de energia ou de informação entre elementos que podem ou não alterar o estado desses elementos. Existem muitos sistemas que são estudados tanto por cientistas quanto por não cientistas, mesmo que o estudioso não classifique o objeto de estudo como sistema. Por conseguinte, existem vários tipos de relações diferentes. Historiadores estudam relações de poder, cobiça, patriotismo etc. Geógrafos estudam relações econômico-sociais e geológico-sociais, por exemplo. Físicos tendem a estudar quase que exclusivamente relações do tipo funções. Uma função é como um mapa. Assim como um mapa leva pontos no papel para localidades geográficas reais, uma função leva elementos de um conjunto para elementos em outro conjunto. E assim como uma mesma localidade geográfica real não pode corresponder a dois pontos diferentes no mapa, um mesmo elemento no outro conjunto não pode corresponder a dois elementos distintos no um.

Figura 2. Esquerda. N é um conjunto, constituído por todos os números naturais. R é o conjunto dos números reais e pode ser representado gemoetricamente como uma reta (a reta R). Se pegarmos duas cópias de R, podemos formar pares de coordenadas das duas retas. O conjunto de todos os pares ordenados assim formados é chamado ou R × R e pode ser representado geometricamente como um plano ilimitado.
Direita. f(x) e g(x) são funções, o que é o mesmo que dizer que elas são mapas que levam pontos de X a Y, enquanto que X e Y são retas reais. O gráfico dessas funções pode ser visualizado no plano  X × Y. Os mapas f(x) e g(x) são unidimensionais, mas logo abaixo está representado um mapa formado pela combinação das duas funções, representado no espaço X × Y × R. Este exemplo ilustra como se pode pensar em funções como mapas, neste caso as funções formam o mapa de uma superfície que pode representar um vale.
Um grau  de liberdade é uma unidade que representa escolha, e é uma característica de elementos, objetos ou relações. Ele representa uma característica de um objeto que pode ser escolhida,  determinada  ou definida. Por  exemplo, definimos um círculo lançando  mão de 1 grau de liberdade, pois todas  as suas propriedades dependem  apenas do raio. Um retângulo necessita de 2 graus de liberdade, um  para cada  lado, visto  que é formado de 2 pares  de lados idênticos. Um paralelepípedo necessita de 3 graus de liberdade (um para cada quarteto de lados idênticos), e assim por diante. Um espaço é (geralmente) um  conjunto de "pontos" ou "localidades" junto com uma relação de distância ou proximidade entre  esses pontos. Por exemplo, o  espaço sideral  é o espaço que habitamos  e  nele utilizamos normalmente a distância euclidiana (ou seja,  medimos distâncias com réguas). Finalmente, dimensão é o número de graus de liberdade que precisamos para definir uma localidade  ou um ponto num determinado espaço. Não, melhor ainda: dimensão é a quantidade de escolhas que temos ao definir  qualquer coisa em seu contexto. Por exemplo, o universo visível é de dimensão 3, pois precisamos de 3 coordenadas  para localizarmos qualquer objeto nele. A superfície terrestre é de  dimensão 2, pois precisamos apenas de 2 coordenadas (ou  graus de liberdade), latitude e longitude, para localizarmos um objeto sobre  ela (vide  GPS). Um fio de cabelo ou  uma linha reta para nós possui dimensão 1, pois lhes medimos  apenas o comprimento. O conjunto A = {secador; pente; barbeador; escova; xampu; sabonete} e a relação "objeto pessoal de higiene" constituem um espaço de dimensão 1, pois definem a escolha de um único elemento de A. Já o conjunto B = {0; 1; 2; 3; 4; ...} junto com a relação "pares de coordenadas" (ex.: (0,0),  (1,3), (10, 37) ... ) pode tanto ser encarado como um espaço de 2 dimensões, quanto de 1 dimensão.

Munidos dessas definições podemos abordar o cerne do problema. Se existem formulações e/ou formalizações de tipos de conhecimento,  desconheço, mas conjecturo a ausência de conflitos com  as principais teorias vigentes da cognição. Devo advertir que utilizo o conceito de "conhecimento" muito liberalmente, o que creio não ferir o argumento em qualquer ponto. Existem certas formas distintas pelas quais podemos adquirir e principalmente armazenar e acessar conhecimento. Existe o conhecimento que apenas "memorizamos", e existe aquele que deduzimos  sempre a depender da ocasião. Por exemplo, as diversas cores  de tinta para  paredes disponíveis no  mercado é um tipo de informação que podemos  apenas memorizar (quando muito!), e geralmente  guardamos esse tipo de informação  numa lista ao invés de memorizar em nossos cérebros. Mas a quantidade de tinta necessária para pintar uma certa quantidade de  metros quadrados de  parede com certa tinta é algo que não memorizamos e uma informação que não colocamos em nenhuma lista. Nós inferimos a quantidade a  partir  da razão de "volume de tinta" por "área de parede" necessária para que a tinta se fixe à parede, e extrapolamos a quantidade necessária a partir  dessa razão. Foi necessário memorizar a razão, mas jamais a quantidade final para completar um serviço. As duas formas de conhecimento são de naturezas distintas.

Um objeto de dimensão zero é um objeto para o qual  não temos  escolha de características. Só temos a opção de aceitar o que ele é. E ele posui apenas 1 característica. Imagine uma régua ou uma linha reta. Qualquer segmento ao longo delas possui comprimento, e como o comprimento do segmento pode  variar de acordo com o comprimento da linha ou da  régua, o segmento é unidimensional. Agora, um ponto na régua ou na linha não possui medidas.  Ok, talvez todos os pontos numa régua podessem ser medidos em 1 mm, mas essa  medida é invariável, não há escolha. O ponto é 0-dimensional. Logo, podemos distinguir tipos de conhecimento pela quantidade de  graus de liberdade envolvidas em sua dinâmica. Conhecimentos exclusivamente memorizáveis podem ser pensados como 0-dimensionais. Por exemplo, um cátalogo de todas as espécies de peixes de água salgada, ou de todas as doenças infecciosas humanas. Entretanto, notemos: o espaço formado pelo conjunto A e a relação "objetos de higiene pessoal" é unidimensional, mas os elementos "secador", "pente", "barbeador" são 0-dimensionais. Da mesma forma, um ponto numa linha reta é 0-dimensional, um segmento dessa linha é 1-dimensional e a reta é por sua vez 1-dimensional. Um conhecimento 1-dimensional seria aquele obtido por extrapolação. Ele envolve a memorização de uma certa informação, mas permite a obtenção de uma outra informação variável, o que consome 1 grau de liberdade, como é o caso da quantidade de tinta para pintar paredes. Outro exemplo seria a eficiência do trabalho humano. Podemos ter uma noção da distância que conseguimos correr antes de começar a nos sentir cansados, e a partir desse ponto extrapolamos a relação distância × cansaço de modo que o crescimento de um é proporcional ao crescimento do outro, sem nos preocuparmos com o que acontece no longo prazo. Esse tipo de inferência homogeneamente proporcional caracteriza uma relação linear, e esse tipo de relação pertence à espaços de dimensão 1. Convém chamar conhecimentos assim caracterizados 1-dimensionais como lineares por simplicidade e conveniência, visto que a geometria analítica imagina a dimensão 1 como uma linha.

Não está explicitamente claro, mas existe uma grande distinção entre dimensionalidade e grau. Aliás, grau é a intensidade e forma com que uma quantidade varia. O grau é dado pelo expoente de uma variável. O conceito de grau usualmente só faz sentido para funções. Existe uma relação entre dimensionalidade e grau, mas que se resume quase de todo à ortografia da linguagem matemática. Para provar a distinção, basta notarmos que uma relação 1-dimensional pode ser de quase qualquer grau. Aqui entra um ponto de confusão linguística, que tentaremos resolver agora. Uma relação (ou função) constante (por exemplo, um mapa plano, sem nenhum relevo) é dita de grau zero. Uma relação (ou função) linear não-constante é dita de grau 1 (ou de primeiro grau). Funções de grau maior que 2 não podem ser representadas por linhas retas em geometria analítica, e portanto são ditas não-lineares. Pelo mesmo motivo, funções constantes também são ditas lineares, pois podem ser representadas por uma linha. Uma função de qualquer grau pode habitar 1 dimensão. O conceito de dimensão é um pouco mais difícil de assimilar. Talvez seja mais produtivo fazer uso do conceito de grau de liberdade para entender como os dois conceitos são diferentes e como ambos são importantes. Uma função em 1 dimensão determina apenas 1 valor (ou característica), ou seja, representa apenas 1 escolha ou 1 grau de liberdade. Já duas funções em 1 dimensão determinam cada uma 1 valor, ou seja, representam cada uma 1 grau de liberdade, enquanto que em conjunto representam 2 graus de liberdade. A existência de 2 graus de liberdade nos permite representar as duas funções como que perpendiculares uma à outra. As duas funções podem ou não ser lineares, independentemente do grau, juntas elas determinam um espaço de dimensão 2 (pois juntas acumulam 2 graus de liberdade).

Figura 3. D é o conjunto de conhecimento catalográfico de certas doenças. No esquema desenhado, cada ponto pode representar um nome de uma doença, ou talvez um nome com descrição médica. Esse tipo de conhecimento geralmente não apresenta estrutura, mas pode ser ordenado de algumas formas para facilitar a catalogação. Diferentemente deste tipo de conhecimento, os gráficos à direita ilustram conhecimentos 1-dimensionais, sendo o de baixo de segundo grau. Neste caso, a informação a ser gerada é flexível ou maleável, e mais do que a memorização e catalogação é necessário. Para o conhecimento linear, por exemplo, é preciso memorizar um valor da taxa de susceptibilidade de acordo com a vacinação bem como a razão entre as duas quantidades. No caso quadrático debaixo, normalmente outras informações são memorizadas que não as medidas matemáticas. Por exemplo, os dois extremos de temperatura (frio demais e quente demais) e a temperatura ideal para sair de casa são memorizados, e também a relação que faz com que a temperatura ideal seja a do meio é memorizada. A relação é o que permite fazermos extrapolação com base nesse conhecimento, o que não fazemos com o conhecimento do tipo de D.
Após a breve digressão, podemos agora falar em conhecimentos de grau superior à 1. Quando as relações se tornam mais complexas, proporções lineares não são mais suficientes para que compreendamos os fenômenos e processos que nos cercam no nosso cotidiano. Vejamos uma relação do segundo grau (quadrática), por exemplo (figura 3). Temos uma parábola com concavidade para baixo ao invés de uma linha reta. Podemos pensar em alguns processos que respeitam até certo ponto essa relação. Por exemplo, ingestão de água. Por um tempo, ingestão de água é algo bom. Chega um certo ponto em que ingerir uma quantidade ainda maior de água não é mais vantajoso (talvez porque saturamos a nossa necessidade), e enfim chega um ponto em que é extremamente desvantajoso ingerir mais água. Esse tipo de conhecimento envolve memorização de pelo menos três pontos, mas também envolve a extrapolação de informação contida entre esses pontos. Ele é um típico conhecimento que pode gerar mais informação do que o que foi memorizado a depender da necessidade. Este exemplo de relação quadrática é utilizado em teoria econômica clássica para descrever a taxa de variação do consumo de um bem de acordo com a sua disponibilidade (a lei da utilidade marginal). Entender processos em sistemas econômicos e afins, portanto, envolve conhecimentos que vão além da memorização e da extrapolação ou inferência linear. Podemos sempre pensar em sistemas e processos mais complexos e adequar a sua descrição a uma relação de grau ainda maior que 2. 

Uma maneira de diagnosticar conhecimentos de grau 2 é notar que, além da extrapolação, eles requerem a memorização de três informações. Já os de grau 3 requerem a memorização de cinco informações. Os de grau 4 requerem sete, e assim por diante. Conhecimentos de graus maiores são mais complexos e exigem maior esforço cognitivo para serem utilizados e armazenados. Da mesma forma que conhecimentos podem depender de uma variável ou de uma função de grau qualquer, eles podem também depender de várias variáveis ou várias funções de quaisquer graus, caracterizando o conhecimento multidimensional. Esse tipo de conhecimento relaciona informações referentes a processos distintos, mas que se influenciam para provocar mudanças em um sistema só. Por exemplo, a flutuação do preço dos laptops depende de várias variáveis distintas, como o poder de compra do consumidor, a utilidade do produto, a elasticidade do preço do produto, a disponibilidade e qualidade de bens substitutos etc, e depende de cada uma dessas variáveis de uma forma diferente. O sistema de mercado é considerado um sistema bastante complexo e a sua modelagem é considerada um problema bastante desafiador. 
Vamos avaliar mais exemplos de conhecimentos de diferentes graus e dimensões.
Conhecimentos 0-dimensionais
  • Rosas são vermelhas.
  • Violetas são azuis.
  • Dinheiro é bom.
Conhecimentos de grau 1
  • Quanto mais ácido o pH do solo, mais azul é a pétala da maravilha.
  • Dinheiro é bom, mas quanto mais melhor.
  • Quanto mais vivo, mais velho fico.
Conhecimentos de grau 2
  • Sol é fundamental para o desenvolvimento da planta, mas sol demais pode ser fatal para algumas.
  • Dinheiro é bom, especialmente em grandes quantidades, mas existem pessoas que não precisam ser ricas para serem felizes.
  • É bom ser jovem por causa do ímpeto e da energia, e é bom ser velho por causa da experiência e da tranquilidade.
É fundamental ressaltar que a classificação da complexidade do conhecimento se relaciona a outros fenômenos cognitivos, especialmente nos contextos escolar e acadêmico, mas não limitado a estes. Em meados do séc. XX surgiram várias discussões sobre a pedagogia e o conhecimento transmitido nas escolas. Entre os pontos mais importantes, estava a questão dos algoritmos aritméticos. Seria mais importante ensinar os algoritmos clássicos às crianças, como sempre foi feito, ou permitir que elas desenvolvam seus próprios algoritmos por conta própria? Ou será que o melhor mesmo seria ensinar algoritmos alternativos e incentivar o uso de calculadoras por crianças? O autor deste texto não defende nenhum dos pontos de vista anteriores, mas eles servem de exemplo importante para revelar a significância dos tipos de conhecimento. Tipicamente, a aritmética básica é ensinada à crianças através de algoritmos de adição, subtração, multiplicação e divisão. Esses algoritmos consistem de uma lista completa e sistemática de procedimentos para se realizar cálculos aritméticos. Eles não demandam nenhum tipo de raciocínio ou extrapolação por parte do usuário (ou da criança/estudante), inclusive podendo ser "ensinados" a máquinas. Esse conhecimento é do tipo 0-dimensional, envolvendo unicamente a memorização, no caso a memorização de passos. O estudante não desenvolve nenhum tipo de noção do comportamento do algoritmo ou do modo como o algoritmo foi desenvolvido apenas através do seu uso. Conhecimentos mais avançados de matemática necessitam o exercício de um raciocínio mais complexo por parte do aluno, mas é possível formar estudantes que mantiveram muito pouco contato com conhecimentos de dimensão maior que zero.

Conhecimentos e raciocínio multidimensionais são essenciais na formação acadêmica e psíquica de seres humanos, isto o autor assume. É essencial entender alguns princípios que são comuns a uma grande quantidade de sistemas estudados atualmente. Por exemplo, em ecologia, é comum pensar na relação predador-presa de forma linear: quanto mais predadores forem introduzidos num ecossistema, maior será a probabilidade de que a presa se torne extinta. No entanto, não é assim que acontece, vários fenômenos diferentes podem acontecer, alguns envolvendo ciclos e outros envolvendo a estabilização das duas populações. Nem todos os ecólogos compreendem esse fenômeno, e na maioria das vezes, um ecólogo não estará presente nas tomadas de decisão que envolvem o destino de ecossistemas terrestres. Esses princípios e fenômenos não-lineares não se restringem à ecologia, eles permeiam todas as áreas do conhecimento, das ciências e tecnologia às artes, administração, relações sociais, experiências pessoais e religião. Existem vários eventos corriqueiros em que podemos aplicar raciocínio não-linear, embora esta não seja a atitude mais comum. E talvez a maneira mais eficiente de combater esta tendência possa envolver a educação infantil.

Uma das fontes mais importantes de conhecimento 0-dimensional, junto da escola, é o senso comum. O senso comum é um conjunto de máximas e de regras para as quais não se fornece justificativa científica. Às vezes são fornecidas explanações satisfatórias, mas isso está longe de ser o caso geral. E em muitas questões rotineiras recorremos ao senso comum para guiarmos a ação. Talvez o maior mal do fato de o senso comum ser uma forma de conhecimento predominantemente linear e 0-dimensional é que ele barra, previne o raciocínio autônomo.

Conhecimentos 0-dimensionais são conhecimentos que não precisam de raciocínio para ser aceitos. Eles são o tipo de conhecimento que podem apenas ser observados (ou seja, provados "verdadeiros" ou "falsos"), jamais avaliados. Se uma pessoa toma o senso comum como "certo", ela dificilmente incorrerá no processo de raciocínio e extrapolação que poderia lhe revelar idéias mais próximas da realidade e mais úteis. Da mesma forma ocorre nas disciplinas básicas da educação - Línguas, História, Geografia, Matemática, Física, é difícil nomear alguma que sofra mais com essa dificuldade. Em Línguas, memorizamos regras gramaticais que nos ensinam como transformar idéias que mentalizamos em frases que escrevemos. Dificilmente é ensinado o processo de estabelecimento de regras, as relações que elas mantém entre si e com a história da língua. O aluno aprende a produzir texto escrito, mas pode não aprender a otimizar o uso da gramática, a respeitar as regras gramaticais e ortográficas pela sua lógica ou, de uma forma geral, não entende como lidar com os processos de uso e desenvolvimento da língua. Em História, ainda é bastante frequente a memorização dos acontecimentos em comparação com o estudo sistêmico da dinâmica populacional humana. Esse quadro tem sido revertido significativamente com o advento da História Crítica, mas isto ainda pode não ser o suficiente para garantir que os alunos sejam capazes de compreender eventos históricos atuais ou prever as consequências futuras desses eventos ou talvez nem mesmo se interessarem por isso. Em Física é dado um grande foco nas fórmulas clássicas e na solução mecânica de problemas, e pouco tempo é gasto no entendimento de como a nossa compreensão dos diferentes sistemas físicos se deu.

Quanto menor a dimensão de um conhecimento, menor a quantidade de esforço necessária para o seu processamento. Este é um provável motivo para uma tendência da população a recorrer mais frequentemente à formas menos dimensionais o possível de conhecimento e raciocínio no seu dia a dia. Extrapolação leva tempo, e esse tempo aumenta com o grau e a dimensionalidade do problema. Pela lei do menor esforço, tentamos sempre utilizar conhecimento 0-dimensional onde julgarmos possível. Conhecimento 0-dimensional é extremamente atrativo em comparação a conhecimentos de complexidade maior, e portanto idéias, doutrinas e escolas que foquem neste tipo de conhecimento fazem sempre bastante sucesso. Uma prática bastante comum é a adimensionalização de sistemas. Extremamente comum em matemática e física, a adimensionalização é talvez mais comum ainda no cotidiano de todas as pessoas. Em ciência, isto quer dizer reduzir a complexidade de um modelo através da "remoção" de variáveis. Por exemplo, talvez um modelo que não envolva o mercado internacional seja o suficiente para descrever o sistema econômico interno da África do Sul. Modelos sempre são mais simples que o sistema que tentamos aproximar, e neste caso eles são ainda mais simplificados. Todos nós temos nossos modelos dos sistemas que nos cercam. Muitas vezes esses modelos se resumem a opiniões, que podem ou não condizer com a "verdade" (se existir alguma) ou a realidade. Conservando modelos (ou opiniões) um tanto complexos dos sistemas que observamos, estamos mais abertos à compreensão dos processos que nos influenciam e que influenciamos de forma a nos tornarmos membros mais eficientes da sociedade. Mas frequentemente o caso é que simplificamos nossas opiniões e conhecimentos, e uma forma bastante comum de reduzir qualquer modelo à dimensão zero é rotulando.

Existe um grande desequilíbrio na natureza do conhecimento e raciocínio utilizados na sociedade, e espero ter ressaltado este desequilíbrio no parágrafo acima. É preciso focarmos mais eforços cognitivos em processos e fenômenos não-lineares, tanto individualmente quanto coletivamente, pois estes foram sempre negligenciados. Dificilmente encontraremos soluções para os problemas sociais enquanto estivermos tendenciosos aos pensamentos e conhecimentos 0-dimensionais ou lineares. É preciso reconhecer entretanto que a superação desse problema é bastante difícil, pois este é um problema recursivo que demanda ele mesmo pensamento não-linear, sem esquecer da barreira de esforço.

Como cidadão brasileiro, tenho notado uma tendência demasiadamente forte à adimensionalização e ao cultivo do conhecimento 0-dimensional e linear, e essa tendência permeia todos os setores da sociedade. Existe uma desorganização inerente da sociedade brasileira que leva a vários problemas políticos e estruturais. Essa desorganização evidencia uma falha na interação entre os diferentes setores político-econômicos, o que pode ser relacionado à incapacidade das entidades competentes de reconhecerem e formarem uma estrutura política eficiente. É extremamente tentador hipotetizar que a predominância do conhecimento 0-dimensional e linear em detrimento do não linear pelos profissionais competentes resulta na incapacidade da elaboração dessa estrutura política. Os problemas brasileiros que citei são estruturais, mas várias nações exibem seus próprios problemas devido à tendência à adimensionalidade ou linearidade do pensamento, das quais o Brasil deve estar longe de ser a pior. Não obstante, é necessário atentarmos para o fato e investir tempo pessoal, cada um de nós cidadãos, em nossos próprios processos cognitivos, para fazer a faxina aqui na nossa casa.